Artigo

Vacinas não imunizam sentimentos

MEDICINA/EVIDÊNCIA

O psiquiatra Cristiano Nabuco diz que a depressão é “um excesso de passado, ao passo que a ansiedade é um excesso de futuro”. Contrair COVID-19 é estacionar no meio deste trajeto: o doente olha para trás e se pune por ter adquirido a doença, enquanto os olhos miram para frente com medo das suas consequências da patologia. Ainda que todas as medidas protetivas tenham sido observadas e os cuidados sanitários mais básicos adotados, fatalmente haverá um acusador. Um dedo censor apontando para o enfermo com fúria Torquemada e reprovação de pecados sem perdão. Enquanto isso, o futuro ou veste as cores cinzentas dos noticiários, ou se nubla pela desinformação dos curandeiros e dos falsos profetas que andam de jaleco.

O Acidente Vascular Cerebral (o AVC, popularmente conhecido como derrame) e a Doença Renal figuram entre os acometimentos secundários mais conhecidos e estudados do COVID, e diariamente são publicados mais estudos dando conta de novas evidências neste sentido.

A edição do JAMA de 22 de abril de 2021 trouxe os resultados de uma pesquisa versando sobre uma “próxima onda de complicações: pacientes assintomáticos COVID-19 estão frente a um risco mais prolongado de desenvolver AVC (JAMA Network Open. 2021;4(4):e217498), ou a descoberta de as pessoas não hospitalizadas têm 60% maior chance de morte nos primeiros seis meses após a doença, quando comparados com quem não tenha contraído o vírus de acordo com o estampado pela revista NATURE naquele mesmo dia (Al-Aly, Z. et al.High-dimensional characterization of post-acute sequalae of COVID-19. Nature https://doi.org/10.1038/s41586-021-03553-9(2021).

Os resultados amedrontam os leigos e aterrorizam os médicos.

Foram esses sentimentos que me envolveram quando contraí a doença no início do mês de março de 2021, após ter sido vacinado e transcorrido o prazo dito suficiente para se dar a imunização. As medidas protetivas só não conseguiram me livrar do medo.

O perigo de evoluir para alguma complicação, o sentimento de impotência face aos (ainda) insuficientes recursos terapêuticos e o necessário isolamento me conduziram a um abismo emocional ainda pouco descrito nos periódicos, que são pródigos em números, mas econômicos em calor humano. O temor por aquilo que pode vir acontecer, ou o excesso de futuro descrito pelo psiquiatra, já bastariam para aumentar a dor de quem está doente, mas ele vem acompanhado pela sordidez da discriminação. Experimentei mais olhares tortos do que solidariedade e fui tachado de negligente por inicialmente ter ignorado a possibilidade de estar contaminado e frequentar um ambiente de trabalho, o mesmo onde – paradoxalmente – todos estavam igualmente vacinados.

A vacina, conforme esperado, evitou a internação, a evolução para a forma crítica com necessidade de tratamento em unidade de cuidados intensivos e a morte, apesar de os sintomas e os exames terem me enquadrado na forma grave da doença.

Optei pelo tratamento domiciliar, como facultam as condutas descritas nos guidelines internacionais e no nosso pobre ministério da saúde. Tive assistência remota de um especialista, que conduziu o caso com êxito, mas a pior parte da moléstia não foi a falta de ar, a tosse, ou a febre, mas a distância daqueles que eu julgava próximos.

Recuperei as funções, mas tive uma sequela irreparável, que foi a desilusão. O otimismo com a parte física está voltando com os exercícios de fisioterapia, mas a realidade que me foi servida numa bandeja suja, fria e indigesta incomoda. A COVID-19 não é apenas uma doença, mas uma síndrome que nos priva do essencial, do básico tanto do ponto de vista físico, quanto emocional e financeiro. Suas sequelas não são apenas aquelas dosadas nos laboratórios, mas as que machucam a alma de quem espera sempre um pouco mais.

 Dr. Manoel Paz Landim

(Cardiologista, Mestre em Medicina pela FAMERP, Preceptor e Médico do Ambulatório de Hipertensão do Departamento de Clínica Médica da FAMERP, São José do Rio Preto)

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