domingo 20 junho 2021
Artigo

Uma benção chamada trabalho

Falar sobre este assunto significa tocar em um tema delicado. Significa levantar feridas naqueles que estão desempregados, despertar dores naqueles que tem um comércio e não podem trabalhar ou até mesmo suscitar desesperança naqueles que trabalham em situações precarizadas ou em ambientes opressivos. Mesmo assim, vamos ao tema.

Contrária à opinião de muitos que veem o trabalho como uma maldição (por isso a segunda-feira é tão execrada), o pensamento cristão olha para o trabalho como sendo uma benção para a humanidade porque através dele nós damos continuidade à obra de criação. Isto quer dizer que o nosso trabalho humano tem a função de dar continuidade e desenvolvimento ao ponto de onde Deus parou no sexto dia. É por essa razão que a tradição luterana afirma que enquanto desenvolvemos nosso trabalho somos “os dedos de Deus”.

Dessa forma, precisamos pensar no real significado do que isso representa. Há muitos que trabalham para enriquecer, outros para provar seu valor ou habilidade, outros apenas para não ter que ficar em casa e há outros que trabalham apenas para não ficar ocioso. Há, porém, um caminho melhor que na maioria das vezes temos desconsiderado: Precisamos trabalhar para a glória de Deus e para o bem comum. Esse conceito é estabelecido a partir do que a Bíblia nos ensina em 1 Coríntios 10.31, que diz: “Quer vocês comam, quer bebam, quer façam qualquer outra coisa, façam tudo para a glória de Deus”. Isso é revolucionário, pois, se a prática de coisas simples como comer ou beber deve promover a glória de Deus, muito mais as outras coisas que praticamos na vida. Trabalhar para a glória de Deus nos livra do peso esmagador de ter que provar o nosso valor em tudo ou de nos enriquecermos a qualquer custo.

É muito conhecido o diálogo que um sapateiro cristão teve com Martinho Lutero. O trabalhador perguntou: “Como posso glorificar a Deus?”. Lutero respondeu: “Fabrique o melhor calçado que você puder e venda-o pelo preço mais justo que conseguir”. Esse entendimento é libertador porque trata a questão do trabalho na sociedade como um chamado de Deus para que possamos servi-lo com alegria em todas as esferas da vida. Não há dissociação entre a fé professada no templo cristão e o serviço realizado no ambiente de trabalho. Tudo faz parte do chamado que Deus faz para vivenciarmos a fé cristã, pois, como afirma Tim Keller: “Seu trabalho diário é, acima de tudo, um ato de culto ao Deus que chamou e equipou você para realizá-lo – não importa que tipo de trabalho ele seja”.

Esse entendimento é libertador também porque evita que o trabalho se transforme em um deus (o famoso “você sabe quem eu sou?”) ou falso senhor. O relato bíblico da construção da torre de Babel escrito em Gênesis 11 mostra isso. A motivação para o trabalho era tornar célebre em toda a terra o nome deles, ou seja, competir com o poder criador de Deus de forma a ficar livre da sua autoridade. O resultado foi a confusão e a derrocada do projeto. Isso aponta para uma tentação sutil que existe em relação ao trabalho: deixar de lado a glória de Deus, o bem da família e da sociedade, e buscar apenas os interesses pessoais, usando o trabalho como um mecanismo para obter controle, segurança e significado. Enfim, um ídolo que compete com o verdadeiro Senhor. Nessa “nova religião” família, amigos e saúde podem até mesmo serem sacrificados.

Nesse ponto, a citação de escritora Dorothy Sayers faz sentido: “O trabalho não é, primordialmente, algo que fazemos para viver, mas algo que vivemos para fazer. Ele é, ou deveria ser, a expressão plena das habilidades do trabalhador, o meio pelo qual ele se oferece a Deus”.

 Rev. Onildo de Moraes Rezende

(Pastor da Igreja Presbiteriana de Jales, Bacharel em Teologia, Licenciado em Pedagogia, Pós-Graduado em Docência Universitária, Mestre em Aconselhamento) 

Desenvolvido por Enzo Nagata