segunda 21 junho 2021
Artigo

Triste fim de Hindenburg

MEDICINA/EVIDÊNCIA

Existem médicos – e até entidades representativas deles – que defendem o uso de um conhecido agente antiparasitário, a ivermectina, como ferramenta de tratamento preventivo (sic) contra a pandemia de COVID-19. Isso aconteceu seguindo a lógica de quem ouve o galo cantar, mas não sabe onde: Em junho de 2020 foi publicado um artigo pela revista Antiviral Research (Volume 178, June 2020, 104787) escrito por um grupo de pesquisadores australianos.

Usar ivermectina para tratar COVID-19 àquela época, quando os cientistas diziam que o fármaco “mostrou ter atividade antiretroviral IN VITRO” (ou seja, em laboratório e não em seres vivos) e que novas pesquisas deveriam acontecer antes de prescrever para humanos, era – no mínimo – inconsequente. Continuar insistindo no uso hoje, quando os estudos complementares não comprovaram eficácia alguma, beira o limite da burrice. Até mesmo a OMS se posicionou contra o uso de ivermectina para quaisquer outros propósitos diferentes daqueles para os quais seu uso está devidamente autorizado (https://www.paho.org/pt/covid19).

Contra o COVID-19 não há tratamento preventivo, mas contra a maledicência sempre haverá e é dentro dessa perspectiva que se deve começar a explicação de uma constatação recém anunciada: a cardiologia divulgou o resultado de robustos estudos versando sobre o uso de um conhecido e antigo antiinflamatório, sim antiinflamatório, a colchicina, para o tratamento secundário (que são os cuidados a serem tomados para controlar uma moléstia) da doença coronariana crônica (Meta-analysis Evaluating the Utility of Colchicine in Secondary Prevention of Coronary Artery Disease (DOI:https://doi.org/10.1016/j.amjcard.2020.10.043)

Existe uma teoria bastante antiga sobre os fatores envolvidos no desenvolvimento da doença que provoca a oclusão das artérias levando ao infarto e ao AVC. Ela se baseia na inflamação endotelial e das placas ateroscleróticas (PLoS One. 2020 Oct 13;15(10):e0239953. doi: 10.1371/journal.pone.0239953. eCollection 2020). A constatação dos benefícios da colchicina, então, é o desfecho de um fato há muito estudado. Então não se estranha, também, que outros medicamentos que foram desenvolvidos primariamente para a redução de colesterol possuam os ditos efeitos pleiotrópicos (aqueles que suplantam o objetivo inicial). Nessa linha se descobriu há muito tempo que eles também têm atividade antiinflamatória e, por isso, controlam e até diminuem as placas ateroscleróticas do interior das artérias.

Essa é a diferença que existe entre o uso viciado de uma notícia mal lida, intencionalmente desvirtuada, e um dado científico sério. O primeiro aspecto a ser observado é a base fisiopatológica que norteia uma pesquisa, os fundamentos que motivam o estudo e não simplesmente o acaso de uma descoberta. E em seguida vem, por princípio fundamental, a reprodutibilidade. Finalmente: qualquer descoberta não pode servir a nenhum fim político, sob pena de repetir-se o que já foi visto no regime que se sucedeu a República de Weimar na Alemanha.

 Manoel Paz Landim

(Cardiologista, Mestre em Medicina pela FAMERP, Preceptor e Médico do Ambulatório de Hipertensão do Departamento de Clínica Médica da FAMERP, São José do Rio Preto)

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