Especial

Seja você a mãe do seu filho

São as costas, dentre tudo, que doem quando se é mãe. Sei que em primeira instância, transforma-se o coração, a mente e a alma. Mas é no corpo e na carne que grandes mudanças ocorrem. Doi logo que o milagre acontece, não importando como a cria chega até uma mulher: parto normal, cesariana, adoção... Quando bebê, doi com as tarefas do dia a dia: carregar nos braços e fazer todos os outros afazeres. Abaixar para pegá-lo e devolvê-lo ao berço. Dormir pouco e em qualquer posição. Ter forças para entender as novidades e medos e ainda continuar vivendo. É as costas que doi quando te analisam  e  te comparam desde já.
Quando o filhote cresce, compromete-se mais a coluna: ele começa a engatinhar, deixa os brinquedinhos espalhados pela casa e está mais forte. Você educa e quando está na frente das pessoas, sente o julgamento "queimando nas costas" diante de seus critérios e opiniões. Você, mãe, sente a coluna travar se não está mais amamentando antes do previsto, se ainda não tirou o pequeno das fraldas, e se dá papinha com temperinhos. Daí, a dor nas costas se agrava porque você não sabe se vai abrir mão de uma carreira, vai fazer dieta, se vai deixar o filho na escola, com a babá ou com a avó! E não tem ioga, pilates e nem terapia que lhe tire da cabeça que "a culpa é da mãe".  Os pais adoram carregar os filhos "de cavalinho", mas se acontece algo errado, a mamãe tem culpa também.  
O fardo aumenta quando a criança vai para escola. Você é um monstro se não encapou os cadernos com os personagens da moda, não levou seu filho para a Disney nas férias ou se ele levou um suco de caixinha para o lanche. Paralelo a isso,  a mãe tem que deixar a casa impecável e harmoniosa, sua paciência e corpo em dia, sua liderança no trabalho e nas redes sociais admiráveis, suas viagens e relações atualizadas. Tem também que ser uma bela, compreensível e ardente esposa... Espera! É mãe solteira, separada ou tem ao seu lado outra mãe? Toma mais 1 tonelada em suas costas. Porque você não pode deixar seus filhos, está condenada. Só pode estar disponível quando a guarda compartilhada entrar em ação.
Eu consigo sentir com todo o meu coração tudo o que afirmei até aqui. Tive um filho aos 19 anos, numa cidade pequena (conseguem sentir a dor em minhas costas?) e nunca parei de estudar e trabalhar. Eu fui infinitas vezes a barzinhos e festas, participei de uma peça de teatro e  curti os prazeres de ser ter 20 e poucos anos, sem deixar um instante de ser mãe, mas tendo que provar isso a cada segundo. Hoje, estou casada com um cara incrível (que não é o pai do meu filho,pasme), tem dias que não quero fazer o jantar, peço para meu adolescente parar de gritar tanto o meu nome e resolver seus problemas sozinho. Eu ainda confiro se meu filho está respirando quando dorme, falo que não tenho dinheiro para um monte de coisas, faço ele descer o lixo, lavar a louça, esfregar o tênis. Eu choro escondida no banheiro e invento mil dores de cabeça para a minha "cara de choro" por motivos da vida. Tento ensinar o que é TMP, masturbação e DSTs. Explico uma cena de sexo, como ele deve tratar uma mulher, a ser divertido com as crianças e paciente com os idosos. E acima de tudo, a se amar e amar ao próximo. Carreguei muito peso e estou aprendendo (e vou morrer tentando) a me livrar de muitas culpas e a desfazer muitas dores. Como se, literalmente, eu tirasse de cima de mim tudo o que me deixa mal e incapaz de prosseguir. Parar de me comparar com as mães que conheço ou que só vejo pelas redes sociais.  Desde pequenino, João ouve: "Filho, as pessoas não são perfeitas e eu também não sou.  E essa mulher cheia de defeitos e injusta, as vezes, é a mãe que você tem".   Eu vivo muito em paz comigo e com ele, mesmo hoje, 14 anos depois de seu nascimento, o pai dele estar numa "briga" judicial comigo por querer a guarda do filho que ele nunca levou ao médico quando criança, nunca acordou sonolento e cansado às 6h da manhã para passar correndo um uniforme do colégio porque trabalha mais de 14 horas por dia entre agência e casa, e que nunca visitou o menino na cidade que ele mora há 5 anos. Vivo em paz mesmo, porque eu escolhi, apesar de todas as dores nas costas, massagear a verdade do meu coração, a ouvir o meu bom senso e a fazer o bem para o mundo que é meu e de todo mundo, inclusive do meu filho. Eu aumentei minha fé em Deus e retirei os rótulos e as fórmulas prontas que não servem para mim, obrigada.  
 Eu aconselho a você, mãe, a fazer o mesmo: tire pesos da vida. Quando digo para não se apegar a outras mães, analise bem, pessoas são exemplos: se boas, copie a sua melhor parte, se ruins, aprenda a não ser igual. Mas de verdade, se nem os irmãos são iguais, quiçá seu filho igual ao filho da amiga do trabalho. E isso porque você também não é igual a nenhuma outra mãe. Viva sua missão em paz e com felicidade, vai dar tudo certo.
Bom, acho que para comemorar esse dia, vou fazer o que gosto muito: receber um bela massagem nas costas. Amo.

Ana Caparroz
 ( jornalista e mãe do João Vitor de 14 anos)

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