domingo 20 junho 2021
FATECNOLOGIA

Perda e desperdício de alimentos na pandemia

No mundo, estima-se que 690 milhões de pessoas passaram fome em 2019, número que pode aumentar até 132 milhões em decorrência da pandemia, de acordo com relatório da ONU lançado em julho de 2020. Ao lado desses dados alarmantes, há outros instigantes: segundo o relatório da Associação Brasileira de Supermercados (Abras) de 2020, 29% dos supermercados do país não possuem programas de reaproveitamento de produtos e 62% de doação de alimentos. Entre os itens perecíveis, os desperdícios são conhecidos: 41% têm como causa a validade vencida e 33%, a maturação e impropriedade para a venda.

Os motivos em relação à perda (a qual se refere às fases de produção, pós-colheita, armazenamento e transporte) e desperdício (relativo às fases de vendas e às práticas do consumidor) são diversos: a grande distância entre a propriedade rural e a casa do consumidor, pouco investimento em infraestrutura (tal como transporte com câmaras refrigeradas e caminhões adequados), seleção padronizada de alimentos por padrões estéticos, práticas de estocagem impróprias nos centros de distribuição e supermercados, entre outros.

No Brasil, projetos governamentais e iniciativas do terceiro setor trouxeram grandes avanços. No entanto, segundo a professora e pesquisadora da Universidade de São Paulo (USP) Sylmara Dias, eles não são suficientes para absorver tudo o que vai para o lixo no final do dia. “Precisaria de um grande esforço de política pública. Como, por exemplo, haver uma linha de financiamento e subsídios a empreendimentos que façam resgate de alimentos”.

Em junho entrou em vigor a Lei Nº 14.016, de 23 de junho de 2020, de iniciativa do Senado, que incentiva restaurantes, supermercados, hospitais, cooperativas, lanchonetes e empresas a doarem alimentos excedentes. A decisão quebrou um longo jejum de leis federais sobre o assunto, tornando possíveis ações coletivas.

Em alguns países, há ações que contribuem para diminuir tais perdas e desperdícios. Na França, por exemplo, uma lei estipula que supermercados com mais de 400m² devem distribuir os alimentos não vendidos. Na Dinamarca, o governo subsidia iniciativas que tenham como objetivo combater o desperdício, e, na Coreia do Sul, os cidadãos pagam tributos pelos alimentos jogados fora, sistema que já reduziu o desperdício em 30%.

Em nível individual, medidas simples tornam o consumo mais responsável, como o uso integral dos alimentos, incluindo as partes não convencionais, como cascas, talos e folhas, comprar nas estações corretas, reciclar as embalagens e utilizar a sobra de uma refeição em outro preparo, como bolinho de arroz ou sopa.

Como profissional da área de alimentos e ser humano, sinto falta do trabalho voluntário na nova legislação brasileira. A lei mencionada, que incentiva a doação de alimentos, poderia incluir a possibilidade de voluntários buscarem as doações nos diversos locais e distribuí-las aos que necessitam. Nesse caso, eles receberiam informações em relação ao transporte adequado dos produtos, e a como poderiam orientar as pessoas no que diz respeito ao consumo rápido de alimentos prontos, estoque, prazo de validade, entre outros.

Vamos fazer a nossa parte para diminuir essas perdas, desperdícios e também a fome de várias pessoas que passam essa necessidade básica, intensificada pela pandemia.

 Por: Prof.ª Dr.ª Denise Pinheiro Soncini da Costa

Docente Fatec Jales – fatecnologia@fatecjales.edu.br


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