domingo 25 julho 2021
Geral

Os livros “esquecidos” e o bem

Imagem da matéria veiculada pela TV TEM com Ayne em primeiro plano e o marido Maurício em banco de praça da cidade 

Por  Ayne Regina Gonçalves Salviano

Quando eu era aluna de mestrado na PUC de São Paulo, tive muitos mentores fantásticos. Foi a história contada por uma professora de lá que voltou à minha mente na pandemia tantos anos depois.

Esta educadora se revezava entre o Brasil e a França onde lecionava semestralmente na PUC e na Sorbonne. Aqui, alugava dois apartamentos, um para morar e outro como biblioteca particular tamanho era o seu acervo particular.

Quando fez 70 anos, ela entendeu que não leria mais todas aquelas obras. Guardou algumas, os clássicos, e outras com as quais mantinha relações afetivas e doou o restante, acho que para a PUC mesmo (havia muitos livros dela na biblioteca da faculdade).

No começo deste ano, fazendo um balanço sobre o que leremos novamente e o que não leremos, minha família – marido, filhos e eu - descobrimos dezenas de livros que poderíamos doar. Começamos entregando-os para bibliotecas, depois para escolas até que lembrei de um movimento internacional de doação de livros, que decidimos copiar.

O conceito chama “BookCrossing”, criado nos Estados Unidos no começo dos anos 2000. Sem tradução específica, significa este movimento de “esquecer” um livro em algum local público para que outra pessoa possa encontrar a obra como um presente e, assim, se sentir estimulada à leitura.

Em 2013, o jornalista Felipe Brandão criou a campanha “Esqueça um Livro”, justamente para inspirar os brasileiros a doarem os livros que não lerão mais e que podem fazer outras pessoas felizes.

Em Araçatuba fazemos o mesmo. Faço uma curadoria na busca dos nossos livros em bom estado de conservação e com temas que podem agradar a maioria dos leitores. Escrevo um bilhetinho em papel colorido e chamativo avisando que se trata de um presente que, ao encontrá-lo, pode-se ficar com ele.

Embrulho o livro em plástico transparente para que as pessoas possam ver o livro, a faixa etária, o assunto e, assim, quem encontrar escolhe se quer levá-lo ou não. O que ganhamos com isso? A sensação de espalhar o bem. E fazer o bem é bom.

 Começamos distribuindo os livros na área central de Araçatuba. Mas é justamente nos bairros que a carência do incentivo à leitura é maior porque não há bibliotecas públicas nem pontos de leitura. Então, nosso programa é, nos finais de semana, conhecer novos bairros e distribuir os livros por praças, pontos de ônibus e outros locais públicos.

Nosso trabalho também nos levou até Birigui. Sempre que estamos lá, deixamos um livro de presente em locais de fácil acesso. O projeto começou a ficar conhecido. Professores e ex-alunos quiseram participar. Estão doando seus livros para que possamos distribuí-los.

Tomara que, após conhecerem nosso trabalho por aqui, alguém em Jales possa se inspirar para fazer projetos de divulgação de leitura na cidade.

 Ayne Regina Gonçalves Salviano

(Jornalista, professora, gestora do Damásio Educacional em Araçatuba e Birigui)


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