domingo 28 novembro 2021
Artigo

O luto como resistência

A morte de Francisco Ferdinando, herdeiro do Império Austro-hungaro, é conhecida como o estopim para a deflagração da 1° Grande Guerra Mundial. Neste contexto, é perceptível a relevância do fator mortes para a história da humanidade e, por decorrência, o luto por elas gerado, o qual pode ser elaborado como forma de resistência e força para lutas decorrentes dos conflitos humanos. Sendo assim, é notório como o luto elaborado é extremamente válido como instrumento de reflexão no combate aos problemas sociais, e que este ajuda nas lutas contra a supressão de direitos, desigualdades e demais tipos de injustiça.

A priori, analisa-se a morte da vereadora fluminense, Marielle Franco, como manutenção das lutas de militância pelas causas sociais. Em meados de 2018, Marielle, vereadora da cidade do Rio de Janeiro (PSOL) foi assassinada a tiros, junto com seu motorista, Anderson Gomes, quando saíam de uma reunião comunitária. Ela era conhecida pela militância nas causas LGBTQIA+, movimento negro, direitos aos periféricos, além da luta feminista. Mandantes, assassinos e a motivação para a morte da militante continuam desconhecidas. Apesar do drama relacionado à morte da representante das minorias, destaca-se a alicerçante ação posterior à morte, por meio do luto ocasionado por seu assassinato brutal, situação a qual serviu de luz para a luta da família da jovem vereadora e de seus apoiadores políticos, os quais continuaram a empunhar, ainda com maior vigor, as mesmas bandeiras ativistas minoritárias de Marielle Franco. Logo, denotam-se, da morte da representante carioca e do sentimento de pesar, advindos de seu homicídio, a resistência às milícias as quais foram alvos de seu brilhante trabalho parlamentar, bem como as lutas ferrenhas contra as desigualdades, em todas as suas nuanças.

Ademais, faz-se mister analisar um dos exemplos mais conhecidos de luto elaborado como resistência, o do secular Jesus de Nazaré. Cabe ressaltar que o mérito da sua abordagem, aqui, não é religioso e que a ortodoxia da doutrina cristã, relacionada à misticidade desse homem estão relativizadas nesta análise. O fato é que, segundo registros históricos, na região da Galileia, há cerca de 2.000 anos, nasceu um judeu com pregações de caráter messiânico, e que foi crucificado pelo povo romano - com a complacência de Pôncio Pilatos. O crucificado ficou conhecido, mundialmente, como Jesus Cristo. Após sua morte, cerca de 12 discípulos mais próximos a Jesus, energizados pela simbologia da sua morte - a qual havia sido transformada em resistência - dividiram-se pelo Velho Mundo, pregando os ensinamentos de seu mestre, sintetizados no ideário do Amor, enorme inibidor das desigualdades. Destarte, conclui-se que o homem que dividiu a linha cronológica global entre antes dele e depois dele é, também, símbolo de luta e resistência em prol dos desafortunados do mundo.

 Portanto, verifica-se que o resultado das análises supracitadas, consiste, resumidamente, na capacidade humana de transformar luto em luta e, especialmente, em lutas contra as desigualdades sofridas pelos que morreram injustamente. Outrossim, ao deparar-se com a perspectiva do luto elaborado como resistência, fica clarividente sua relevância e extrema capacidade de, através dele, desigualdades serem mitigadas e mártires serem ressignificados. Oxalá, chegue o dia em que as mortes já não sejam frequentes, e o luto torne-se obsoleto, a fim de que haja resistência sem pêsames e chagas melhor compreendidas.

 EDUARDO TOLEDO DE CAIRES

(3EM - ANGLO JALES - CURSO DE REDAÇÃO PROFESSOR MARCONDES)

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