domingo 20 junho 2021
Artigo

O infarto vai vencer a guerra

MEDICINA/EVIDÊNCIA

A literatura médica tem um tsunami de informações diárias. Somente para o infarto do miocárdio já houve 4504 publicações nos quatro primeiros meses de 2021 considerando apenas o banco de dados do PUBMED, o que dá uma média de 37 artigos por dia. Como a cardiologia tem outras de íntimo relacionamento, como as doenças renais, o diabetes e os distúrbios do colesterol, some-se a esses números mais uma enxurrada de outras publicações para atualizar o que está escrito nos livros textos.

Esse volume absurdo é resultado de estudos que se aplicam à melhorara da saúde das pessoas, procurando garantir mais anos de vida livres de doenças. Isso seria obvio, não fosse por uma contradição difícil de entender: é sabido que o colesterol alto é um dos fatores decisivos para o infarto. Também é muito conhecido por todos, que o uso dos medicamentos da classe das estatinas (inibidores da HMGCo-a redutase) e as dietas específicas conseguem melhorar os valores sanguíneos dessas substâncias. Partindo do pressuposto de que só os suicidas não desejam vida longa, seria também obvio concluir que todas as pessoas seguissem à risca esses preceitos. Mas, não acontece assim.

Contrariando as expectativas, inúmeros trabalhos como o de Laszlo Mark (JAMACardiol. April 28, 2021.doi:10.1001/jamacardio.2021.0832) mostram existe pouca aderência a este tipo de tratamento em todas as partes do mundo. E isso tudo acontece em plena era da tecnologia, que dispõe de comunicação irrestrita e até mecanismos como o Gravador Eletrônico de Saúde (EHRs). Esses recursos condensam os dados dos pacientes em um só banco de dados, incluindo alertas remotos, que serviriam para ajudar, mas não conseguiram.

Os estudiosos que procuram explicações para este fenômeno já conseguiram chegar a algumas conclusões. O efeito nocebo, ou a crença de que o medicamento prescrito fará mal, está entre elas. Outra causa encontrada foi a desinformação médica. Espantosos 93% das informações eletrônicas foram ignoradas (Thomas M. Maddox JAMA Cardiol. 2021;6(1):48-49. doi:10.1001/jamacardio.2020.4756) pelos cardiologistas, apesar de o mecanismo ter sido projetado visando a essa ajuda. Enquanto as pessoas nutrem crenças em pajelanças, como os chás, sucos de beringela, alho, ômega três, cartilagem de tubarão e outras bobagens do gênero, os médicos que, antes de atuarem como agentes do convencimento, não se esforçam para controlar os altos níveis de doenças cardiovasculares em todo o planeta, o infarto e outras patologias do coração vencerão a guerra.

 Dr. Manoel Paz Landim

(Cardiologista, Mestre em Medicina pela FAMERP, Preceptor e Médico do Ambulatório de Hipertensão do Departamento de Clínica Médica da FAMERP, São José do Rio Preto)

Desenvolvido por Enzo Nagata