Artigo

NOVOS TEMPOS: A intolerância da tolerância (ou a cultura de cancelamento no Brasil)

Para melhor compreensão do tema proposto sugiro a leitura do meu artigo publicado neste jornal na segunda semana do mês de Fevereiro deste ano. Peço atenção também para a afirmação de que repudio toda forma de violência física ou ideológica, bem como toda forma de pré-conceito (entendido como um conceito formado a partir da negação à reflexão e do apego ao gosto pessoal), mas amo e valorizo o conceito estruturado a partir de uma base ou fundamento, seja teológico (formado a partir de crenças baseadas no que se considera revelação) ou familiar (construído a partir de valores transmitidos pelos pais). Em termos claros eu rejeito em absoluto o pré-conceito e abraço conceitos. Espero o mesmo da sua parte, leitor.

Vamos lá então. Estamos vivendo em um mundo em transformação. Em todos os seus aspectos positivos e negativos que isso representa não podemos pensar que a vida continuará como sempre foi pelo menos em relação às construções sociais e absorção de valores. Termos como “disrupção” e “senso de vacuidade diante do novo” são largamente usadas para descrever como o ser se sente diante desse processo de transformação que a sociedade experimenta. Não somente a prática, mas também os conceitos estão em mudança. Alguns observam que a mudança é demasiada; outros observam que ela é imposta. Esse é o ponto que eu quero refletir.

O tema deste artigo é, na verdade, o título de um magistral livro escrito pelo notável teólogo Donald Carson. Nele o autor apresenta a tese de que há uma diferenciação entre a tolerância no seu sentido comum e aquilo que ele chama de “nova tolerância”, termo resultante das diversas disrupções neste mundo em transformação. Ele explica que o sentido antigo de tolerância significa o ato de alguém discordar da posição do outro, mas também dar a ele o direito de expressar suas perspectivas. Ao mesmo tempo em que a pessoa defende seu ponto de vista como correto dá ao outro o direito de sustentar opinião divergente. Nesse caso o debate sério, responsável e profundo geraria discussões respeitosas onde cada qual expressaria seu posicionamento e seu fundamento. O valor intrínseco nesta definição são a liberdade de expressão respeitosa e a crença em verdade absoluta. Na redefinição deste conceito a “nova tolerância” postula que ninguém jamais deve discordar das perspectivas do outro e tampouco questioná-las – o pecado supremo. O valor intrínseco aqui é o ecletismo subjetivo, ou seja, a aceitação da ideia de que não há uma perspectiva exclusivamente verdadeira.

A questão principal, portanto, vai depender do que se considera o sentido da palavra tolerância. Não é um exercício fácil porque, como vimos, existem duas compreensões sobre ela. Logicamente existem também duas atitudes práticas que são provenientes desta compreensão. De um lado temos cristãos conservadores e apegados às suas crenças que tem um fundamento revelacional – portanto sagrado e Divino, bem como pessoas que, mesmo não sendo cristãs, se apegam aos valores familiares que lhes foram ensinados. Isto significa viver com referências sólidas e como consequência expor-se ao pré-conceito (veja novamente o primeiro parágrafo do artigo) dos que pensam diferente. Na verdade, a pessoa que defende uma verdade absoluta é facilmente vista pelo lado oposto como intransigente, fascista ou fundamentalista. De outro lado existem aqueles que defendem a ideia de que não há uma perspectiva exclusivamente verdadeira, pois a modernidade impõe uma nova moralidade. Assim, não há um conceito objetivo do que é certo e errado e nem crenças definidas. Uma frase atribuída a G.K. Chesterton diz: “A tolerância é a virtude de um homem sem convicções.” Essa frase encaixa-se perfeitamente no conceito da “nova tolerância” mas jamais poderia ser adaptada ao conceito de tolerância conforme a primeira definição.

Este novo conceito cria uma situação obscura, confusa e contraditória. Ao mesmo tempo em que ela insiste para que a sociedade seja neutra e livre de concepções teológicas ou familiares ela introduz e impõe uma estrutura de pensamento que oprime, fustiga, bane e lacra quem a ela se opõe. O filósofo Sócrates com seus questionamentos e pontos de vista diferentes certamente seria condenado à cicuta novamente. A ambiguidade desta “nova tolerância” chega às raias do indizível. Ao mesmo tempo em que ela apoia a diversidade, expulsa quem pensa diferente. Estranha tolerância inclusiva essa... Ao mesmo tempo em que dizem que deve haver tolerância à diversidade eles afirmam não haver nenhuma tolerância para aqueles que discordam deles. A prática não é nova, na verdade é uma réplica de todos os governos absolutistas e tiranos que já existiram. O recurso totalitário à coerção é típico de ditaduras ridículas de direita ou esquerda que existiram e agora querem ressuscitar. A ideia é exigir tolerância apenas no que diz respeito ao seu ponto de vista, mas não quando se trata do ponto de vista oposto. Para este o que vale é a mordaça, lacração, banimento, ódio e execração pública. Sim, em nome da tolerância eles agem com intolerância, ironia, deboche, cancelamento. Cria-se uma sociedade com leis particulares onde todo mundo é promotor, juiz e carrasco. Essa cultura de cancelamento é típica de crianças mimadas que não sabem sofrer contrariedades ou discutir o contraditório sem se sentir ofendido. É fácil banir o contraditório para se esbaldar tranquilamente na própria sabedoria... E para tranquilizar a consciência dos adeptos da “nova tolerância” requer que se use o termo “discriminação” como um mantra para rotular quem tem conceitos definidos sobre valores e práticas.

Nenhuma sociedade será madura e verdadeiramente civilizada enquanto não tiver condições de discutir com sabedoria e educação quem pensa diferente. O resultado presumível disso seria o respeito social, a aceitação de perspectivas diferentes e a imparcialidade em relação às pessoas que defendem essas perspectivas. Se não for assim, a patrulha ideológica continuará a matar outros Cristos, outros Sócrates e outros que cometem o pecado supremo de pensar diferente ao status quo. O mundo preconizado por George Orwell em “A revolução dos bichos” viria e satisfaria apenas os confrades. O resto seria cancelado.

 Rev. Onildo de Moraes Rezende

(Pastor da Igreja Presbiteriana de Jales, Bacharel em Teologia, Licenciado em Pedagogia, Pós-Graduado em Docência Universitária, Mestre em Aconselhamento)