domingo 28 novembro 2021
Artigo

Mulheres não vieram ao mundo para serem bonitas

A cantora Marília Mendonça, 26, morreu em acidente aéreo no último dia 5 de novembro

Vou ser sincero com vocês, acho que para mim já deu. Tem um tempinho que a gente ouve, lê e vê essas coisas acontecerem e parece que nem a morte nos poupa. Não importa quanto talento você tenha na área em que atua, se você é uma mulher, é a aparência que sempre vai falar mais alto.

Um texto do escritor e ator Gregório Duvivier nesta Folha, em 2014, me marcou muito nesse sentido. Ele dizia: “O primeiro comentário sobre uma mulher é sempre esse: feia. Bonita. Gorda. Gostosa. Comeria. Não comeria”. E não importa o que essa mulher esteja fazendo, seja presidindo a Petrobras (que era o tema sobre o qual Duvivier falava no texto citado), seja ocupando o posto de cantora mais ouvida do país, haverá sempre, SEMPRE, aquela observação: “seu visual não era dos mais atraentes”, “era gordinha e brigava com a balança” ou qualquer coisa que verse sobre a aparência da protagonista em questão.

Todo esse caminho, eu sei (nós sabemos) de cor. Se não me engano, agora vão dizer que não era a intenção, que queriam falar sobre a importância da quebra de paradigmas de uma mulher “fora dos padrões” ter chegado aonde Marília Mendonça chegou. Sem perceber que os padrões são justamente impostos por quem, até mesmo no momento doloroso da partida de um ícone da música brasileira, faz questão de lembrar o peso, não da representatividade da cantora, mas do corpo dela na balança. “Magrinhas” ou “gordinhas”, nós sobrevivemos de olhares.

Mas que se dane a nossa postura. Não importa o que a gente faça em vida, até na morte o julgamento vai passar pelos nossos corpos. Às vezes, a impressão é que homens têm plena convicção de que a nossa razão de existir no mundo é ser agradável aos olhos deles. Nossa função número um é ser bonita. Depois, quem sabe, se fizermos algo relevante, eles tecem algumas linhas a nosso respeito –não sem, claro, dedicarem o devido parágrafo à nossa aparência. Não fazem isso quando escrevem obituários de personagens masculinos.

E agora, de quem é a culpa? Vão dizer que a sociedade não julga os homens pela beleza, então não é preciso falar dela quando escrevem sobre eles. Esquecem que “sociedade” não é sujeito oculto. Somos nós mesmos. E enquanto eles reproduzirem essa mesma lógica, as mulheres nunca vão conseguir se libertar das amarras de, mais do que serem incríveis no que fazem, terem de ser bonitas, magras, gostosas.

Preocupem, não, que nós não vamos tomar vergonha na cara, vocês é que vão. De Marília para vocês, superem. Parem para ouvir o que as mulheres têm a dizer. Desçam do pedestal da arrogância de quem sempre tem a certeza de que está certo e de que o erro está nos outros para buscarem enxergar o que os holofotes, sempre direcionados para vocês, tamparam. Quando uma mulher cantar, fale sobre sua voz.

Quando uma mulher escrever, fale sobre seus textos. Quando uma mulher apresentar um programa na TV, comentar um jogo de futebol, assumir a presidência de uma empresa ou de um país, falem sobre o que ela faz, não sobre a sua aparência.

Daqui um tempo, vocês vão se acostumar. O protagonismo feminino não vai parar de incomodar. Vocês que estavam acostumados a escrever uns sobre os outros terão cada vez mais de escrever sobre nós. E o tempo vai ensinar. Ouvir Marília Mendonça pode ajudar.

A ela, o eterno agradecimento de uma mulher que ouviu, aprendeu e se inspirou nas suas letras, na sua forma autêntica de levar a vida, e na força que sempre demonstrou para pavimentar o caminho dela e das próximas que viriam em um meio tão machista como é o do sertanejo. De mulher para mulher: obrigada.

 Renata Mendonça

É jornalista, comenta na Globo e é cofundadora do Dibradoras, canal sobre mulheres no esporte

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