domingo 20 junho 2021
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LUIZ CARLOS SEIXAS: “Armando começou pintando a troco de uma sodinha para colegas de classe”

Seixas: “publicar o livro tornou-se um sonho recorrente”

Aos 63 anos,dos quais 12 vividos em Jales, entre 1962 e 1974, Luiz Carlos Seixas, compositor premiado em festivais locais e escritor, encarna o típico caso de quem saiu de Jales, mas Jales não saiu dele. Membro de uma família que está na cidade desde seus primórdios, ele está prestes a concluir seu maior sonho — publicar um livro com fotos dos quadros do pintor primitiva jalesense Armando Pereira, falecido há 20 anos. Seixas, que mora em Ourinhos, foi entrevistado pelo J.J. para confirmar o lançamento do livro neste mês de abril, 80º aniversário de Jales (D.R.J.)

J.J. – Quem foi Armando Pereira?

Luiz Carlos Seixas – Armando Pereira da Silva nasceu numa vila chamada Suinana, zona rural de Altair, a 3 de novembro de 1943. Era o sétimo dos nove filhos de Manoel Pereira da Silva e Clemência Maria de Jesus, que vieram a pé da Bahia para Montes Claros, MG. Francisco, único irmão baiano de Armando, faleceu em decorrência das agruras dessa viagem. De Minas migraram para Altair, na região de São José do Rio Preto, de onde muitos pioneiros vieram para Jales no início da década de 1940. O jovem Armando só veio mais tarde, em 1952, com toda a família. Inicialmente, estabeleceu-se no sítio de Anselmo Trazzi. Morou também no Córrego da Figueira, Figueirinha, Tanquinho, Perobinha e no Córrego do Veadinho, a partir de 1963.

A princípio, pintava nas costas dos calendários oferecidos como brinde pelos estabelecimentos comerciais. Descoberto pelo sitiante José Mendes de Seixas, no final da década de 1960, ele expôs seus primeiros trabalhos no antigo prédio da Câmara Municipal. Eram dois desenhos feitos a lápis em cartolina: o nosso terminal rodoviário da Rua Oito e o “Viaduto du Chá”. A troca de vogal não o diminui, apenas confirma o pouco tempo que o pintor frequentou os bancos escolares.

Armando casou-se com Cândida Rodrigues da Silva, sua prima em primeiro grau, em 1981. O casal teve uma única filha, Aparecida Cristina da Silva, nascida em 1985. Aposentado em decorrência da Doença de Chagas, Armando mudou-se para a cidade. Seu último domicílio foi à Rua Guilherme Gomes, 3.187, no Jardim América. Faleceu em 22 de fevereiro de 2002, aos 59 anos de idade. O eterno menino que começou pintando a troco de uma sodinha para seus colegas de classe que não sabiam desenhar, deixou mais de 1 mil telas espalhadas pelo Brasil. No exterior, talvez apenas na Holanda se encontrem alguns trabalhos seus levados pelo padre José Jansen.

J.J. – Por que decidiu publicar o livro sobre Armando?

Luiz Carlos Seixas – O livro é composto por 35 imagens de Jales captadas pela ótica do pintor. A maior delas já não existe mais como na segunda metade do século passado. Se alguém não contextualizar e detalhar isso, certamente a próxima geração não irá reconhecer essas imagens ou o que elas representaram na Histórica do município.

J.J. – Quais fontes você consultou?

Luiz Carlos Seixas – Meu pai me apresentou à pintura do Armando no tempo em que ele ainda pintava à luz de lamparina depois de trabalhar o dia inteiro na roça. Fui seu amigo até quando ele nos deixou há 20 anos. De lá pra cá o livro tornou-se um sonho recorrente. Em julho de 2014, numa viagem a Rio Preto, Tanabi, Fernandópolis e Jales, eu fotografei 30 telas – as cinco restantes estavam na parede da minha casa. Para falar sobre as imagens eu recorri aos livros do meu tio Genésio, “Jales – precursores e pioneiros” e “Até a instalação da Comarca”; encomendei textos a Marcos Pachi, Deonel Rosa Jr, José Devanir (Garça), Rui Rodrigues, e escolhi trechos de algumas crônicas que escrevi sobre o Armando a partir de 1998.

J.J. – Armando pintava a partir de fotografias ou tinha uma memória afetiva?

Luiz Carlos Seixas – Ele nunca fotografou nada, mas parece que tinha uma máquina fotográfica na cabeça. Isso fica evidente nas cenas que pintou mais de uma vez, às vezes com intervalo de anos, em que repete o quadro quase que fielmente. (veja box sobre o córrego do Veadinho)

J.J. – Quando o livro será lançado?

Luiz Carlos Seixas – Desde o início da pandemia, a minha preocupação maior é concluí-lo. Em um ou dois meses ele estará disponível nas plataformas como livro digital podendo ser lido em computadores, celulares e outros equipamentos eletrônicos. Como é um livro de arte, com a reprodução de quadros fantásticos sobre a nossa cidade, eu espero que ele também vire um livro de papel. Aliás, ele está sendo diagramado para isso. A ideia é imprimir 500 exemplares em papel couché de boa gramatura. Os custos disso são totalmente viáveis.

A rua 12 de cada um 

 Marcos Pachi

(jalesense, diretor da Upcomvisual em São Paulo)

Se observarmos agora o quadro moderno da rua 12, há uma atmosfera quase que oposta à do quadro antigo. Agora o céu vermelho cedeu lugar a um céu azul, o conjunto de casas é claro, a catedral é um grande bloco de luz no meio de uma praça enorme. As pessoas caminham em diferentes direções, existem carros nas ruas. Cada conjunto de pessoas é único, fechado em seu próprio espaço, não mais uma grande massa de humanos agrupados em torno à procissão. Há pouco verde no entorno da cidade, ao contrário do antigo, e nos declives da periferia, algumas casas pequenas evocam uma cisão do conjunto urbano centrado na catedral. Não há dúvida que estamos frente a uma cidade moderna, mas ainda assim, lá está a rua 12, como um personagem da cidade, como se ainda quisesse apontar que ela mostra “a cidade” e que podemos, desta forma, carregá-la conosco, como um amuleto, um souvenir, uma geografia interior.

O córrego do Veadinho na visão de Armando

 L.C. Seixas

Bairro rural situado na altura do km 7 da estrada vicinal Vitório Prandi. As três telas foram pintadas em anos diferentes, entre 1995 e 1999. Sabendo-se que Armando não fotografava seus quadros, concluímos que ele tinha “fotografias” registradas na sua cabeça. Com um detalhe: em visita ao local observa-se que essa perspectiva é impossível de se conseguir com qualquer tipo de lente (grande angular, normal ou teleobjetiva). Armando compunha os elementos que conhecia, pois ali residiu por vários anos da década de 1960, de um ponto de vista único.

No sentido Jales-Dirce Reis, à esquerda temos o grupo escolar construído em 1962 em terreno doado pelo Dr. José Guimarães Reis; a residência de Francisco Molina e, em seguida a sua máquina de beneficiar arroz, inaugurada em 1963. À direita, a capela construída em 1964 em terreno doado pelos irmãos Egídio e José Buzetti, a barraca para bailes e quermesses, o campo de bocha e a venda de Geraldo Boldrin.


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