domingo 17 outubro 2021
Perspectivas

Gente que se importa

O mundo está dividido em dois. De um lado tem gente que se importa, do outro, gente que não se importa.

De um lado tem Bill Gates, da Microsoft. Magnata com fortuna estimada em 100 bilhões de dólares, ele mantém a Fundação Bill e Melinda Gates desde 2000 e já investiu mais de 50 bilhões de dólares em pesquisas para o tratamento e a cura de doenças que ainda matam muito, como a pólio e o ebola, principalmente nos países pobres como a África.

Do outro lado tem Jeff Bezos, da Amazon. O homem mais rico do mundo investiu mais de um bilhão de dólares para construir uma nave particular e dar uma voltinha de 20 minutos no espaço. Era o seu desejo pessoal. Se as pesquisas dele também ajudarão, um dia, na exploração do universo? Por enquanto continuamos aqui na Terra com milhares de pessoas morrendo todos os dias devido a essa absurda desigualdade.

No Brasil, de um lado há pessoas como Bia Dória, esposa do governador de São Paulo, João Dória, que dá entrevista taxando morador em situação de rua como preguiçoso. Também temos a deputada estadual e professora de Direito do Largo São Francisco, Janaína Paschoal, que acredita que dar comida aos famintos aumenta o crime.

O colega dela na Assembleia de São Paulo, Arthur do Val, quando foi candidato à prefeitura da capital, não teve nem vergonha de dizer que era preciso “espantar” os miseráveis para elevar o valor imobiliário de algumas regiões. E a própria prefeitura de São Paulo, ao instalar pedras pontiagudas debaixo dos pontilhões, demonstrou optar pela arquitetura hostil para expulsar os menos favorecidos das áreas nobres, como o Rio de Janeiro já tinha feito quando sediou as Olimpíadas e a Copa do Mundo.

Enquanto isso, do outro lado, na Finlândia, o governo outorga casas aos moradores em situação de rua para dar dignidade ao ser humano e, a partir daí, promover o resgate do indivíduo. Chama-se “Housing First”, programa baseado em um movimento denominado “Pathways Housing First”, dos Estados Unidos, criado no início dos anos 1990 pelo psicólogo Sam Tsemberis. Primeiro o governo oferece a casa ao morador em condição de rua e depois negocia como a pessoa/família poderá pagar por ela, sem condições nem pré-julgamentos.

A esta altura alguém vai dizer: “Quer comparar a Finlândia com o Brasil?”. Não. Conheço bem todas as diferenças. E a principal é que lá há força de vontade política e competência. No Brasil não faltam moradias. O último levantamento nacional apontava que havia 8 milhões de moradias desabitadas e 7 milhões de moradores em situação de rua.

Não é possível saber se estes números correspondem à realidade hoje. Não teremos o Censo. O governo federal alegou falta de verbas. O Censo é a única ferramenta capaz de direcionar políticas públicas efetivas.

Enquanto isso, continuamos com os escândalos do Fundo Eleitoral e dos cartões corporativos da presidência, entre outros.

 Ayne Regina Gonçalves Salviano

(Jornalista, professora e gestora do Damásio Educacional em Araçatuba e Birigui.)

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