Editorial

Exemplo para o andar de cima

O país vem experimentando um processo de polarização raras vezes visto em sua história. A face mais visível do confronto se deu no dia 7 de setembro, com desdobramentos nos dias seguintes.

Diante de tal quadro, duas perguntas inevitáveis. Até quando o presidente Jair Bolsonaro continuará esticando a corda, embora viva dizendo que jogará dentro das quatro linhas da Constituição?

 De outra parte, até quando os chefes de outros poderes tolerarão, sem reação, as estocadas do chefe da nação?

Fala-se que a trombada vai ser inevitável. Porém, no início deste século, o povo de Jales deu uma demonstração inequívoca de que o desarmamento de espíritos é não somente possível, quanto também absolutamente viável.

Exatamente em uma época como esta, no dia 3 de setembro de 2003, cerca de 8 mil pessoas saíram às ruas de Jales para exigir que a Prefeitura Municipal e a família Jalles celebrassem acordo sobre uma dívida calculada em R$ 20 milhões referente à desapropriação, em 1988, portanto, 15 anos antes, de 16 alqueires para implantação do Distrito Industrial II, às margens da Rodovia Euclides da Cunha.

A sociedade civil organizada, em movimento articulado pelo advogado Carlos Antonio Prata, de saudosa memória, com o apoio do Fórum da Cidadania, tendo à frente alunos do antigo CEFAM (Centro Específico de Formação e Aprimoramento do Magistério) marchou unida pela avenida Francisco Jalles rumo à Praça Dr. Euphly Jalles, local da concentração e posterior dispersão.

Lideranças de todos os matizes, tanto políticas quanto comunitárias e até religiosas abraçaram a causa e estiveram presentes unidas pelo ideal de colocar fim a uma disputa que atrapalhava o desenvolvimento de Jales.

Só para que o leitor tenha ideia da magnitude do encontro, a manifestação começou com três padres católicos —Valentim Stefanoni (Catedral), Geraldo Trindade (Santo Antonio) e Geraldo José (São José Operario) — e um ministro evangélico, o pastor Elias Fernandes de Matos (Primeira Igreja Batista), de mãos dadas, fazendo uma oração para que as partes se acertassem.

Pode até parecer ingenuidade, mas tal qual estampou a manchete do Jornal de Jales na edição posterior, aquela manifestação popular foi um exemplo para o Brasil, pois, a partir daí, os litigantes caminharam para o armistício.

O que aconteceu aqui pode se repetir em nível nacional? Sim, pode. Para quem duvida, vale lembrar o escritor russo Tolstoi: “conhece a tua aldeia/ e sê universal”.


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