domingo 20 junho 2021
FATECNOLOGIA

Excesso de reuniões virtuais provoca um novo fenômeno: ‘fadiga de zoom’

Por  Bruna Arimathea / O Estado de S. Paulo

Gabriela Costa, 25, é professora de inglês e mestranda em geografia — em tempos de pandemia, serviços como o Zoom foram as suas salas de aula. A mudança foi sentida. “A gente fica muito mais cansado. Quando termina a aula, só me jogo na cama”, diz. Ela não está sozinha. Ao longo do último ano, a sensação de exaustão causada por videochamadas foi sentida por muita gente que teve de trabalhar ou estudar em casa — o fenômeno ganhou até nome, “zoom fatigue” (ou “fadiga de zoom”). Agora, cientistas começam a entender melhor as causas para o problema e os seus efeitos.

No final de fevereiro, uma pesquisa da Universidade Stanford mostrou que a exposição excessiva às videochamadas são prejudiciais a curto e longo prazo. Entre os sintomas estão dores de cabeça, depressão e crises de ansiedade. Jeremy Bailenson, professor que liderou o estudo, detectou que, entre as causas do cansaço, estão: a relação com os olhares de terceiros, a exposição à própria imagem na tela, a falta de exercício e a frustração em não conseguir se expressar por meio da câmera.

O primeiro fator descrito por Bailenson é uma espécie de estresse por ser o “centro das atenções”. Ele acontece porque cada um dos participantes da conversa recebe o tempo todo os olhares do grupo. Um painel de conferência pode ter dezenas de olhares diferentes, mas estarão todos voltados para o usuário à medida que ele assiste a própria tela da plataforma.

Para a neurocientista doutora pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Thaís Gameiro, o problema vai além de apenas mostrar o rosto em uma reunião. Ela explica que a sensação de monitoramento a longo prazo traz reações cerebrais que tendem a nos afastar do conforto de uma situação presencial. “Com a câmera ligada, você é o centro das atenções mesmo quando não está falando. Somos muito sensíveis à avaliação social”, diz Thaís.

A nossa própria imagem transmitida na tela também joga contra. Dar aquela olhadinha no próprio vídeo antes ou durante uma reunião com a câmera ligada é tentador — chega a ser quase uma regra na etiqueta secreta das videoconferências. Mas ficar a maior parte do tempo se olhando pode entrar na conta do estresse.

“Diante da tela, ficamos olhando o tempo todo para o nosso rosto como se a gente estivesse olhando para um espelho. É o tempo todo olhando a expressão, querendo adequar para que ela possa ser a mais agradável possível. O usuário pode correr o risco de se desconectar do que está fazendo para se analisar”, explica Sylvia van Enck, especialista em dependência de Tecnologia do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas.

Arthur Loureiro, cosmólogo e pesquisador na University College of London, sabe bem como é enfrentar esse “problema”. O gaúcho passa até 15 horas por semana em reuniões e não consegue evitar rever a postura e reparar em aspectos de seu quarto enquanto está com a câmera ligada.

“Sempre fico olhando a minha imagem. Às vezes eu percebo e fico um pouco preocupado com o fundo do vídeo, tentando esconder alguma coisa. Mas acontece automaticamente. Tento me policiar e olhar para a pessoa que está falando”.

A pesquisa de Stanford vai além da recomendação: desligue a própria imagem. Isso pode diminuir a exposição e ser um fator a menos de estresse e autojulgamento. “No mundo real, se alguém estivesse te seguindo com um espelho constantemente — de forma que, enquanto você estivesse falando com as pessoas você estivesse se vendo em um espelho, isso seria loucura”, afirma Bailenson.

FALTA DE EXPRESSÃO

Por um lado, as videochamadas turbinam a exposição de nossas imagens. Por outro, eliminam tudo o que compõe uma conversa presencial: falar, gesticular, fazer caretas. Elisa Brietzke, psiquiatra e professora da Escola Paulista de Medicina, explica que nosso cérebro é programado para reconhecer sinais corporais, que complementam a fala. A falta deles é significativa para a atenção e para a frustração com a conversa. “O cérebro fica o tempo todo procurando por pistas visuais sobre o que está acontecendo”, diz.

Como são essenciais para a compreensão, é necessário esforço para que eles ocorram na videochamada. O planejamento é mais um dos fatores de estresse encontrados por Bailenson.

“Você precisa ter certeza de que sua cabeça está enquadrada no centro do vídeo. Se quiser mostrar a alguém que está de acordo com essa pessoa, faça um aceno exagerado com a cabeça ou levante o polegar. Isso adiciona carga cognitiva, pois você está usando calorias mentais para se comunicar”, diz o professor no estudo.

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