Artigo

Eu já me esqueci de você

Crônicas de SP*

Eu me esqueci de você.

Meus amigos dizem ser uma sequela da Covid.

Pode ser.

Eu me esqueci de você.

Dias atrás, uma foto sua despencou de um livro.

(Sinapses preguiçosas. Sinais fracos de internet. Telegramas que nunca chegaram. E-mails presos na caixa de saída. Celular no modo avião. Palavras que secam a garganta...).

Demorei seis segundos para ligar os pontos entre a fotografia e algum capítulo-fantasma da minha própria vida.

Houve um tempo em que as coisas aconteciam de um jeito mais atropelado. Tudo parecia uma corrida afobada de 100 metros rasos. O nosso tempo junto não foi maior do que o de um comercial de margarina.

Tudo o que a gente viveu cabe dentro de uma caixinha. São momentos bem acomodados. As peças estão encaixadas como em uma partida perfeita de Tetris.

Mas acabou.

Mais um amor lançado ao mar.

Como tantos outros (nota-se a importância de aprender a nadar).

Tomara que metade dele tenha encontrado outro porto.

Hoje, nossa foto é um marcador de página no meio de um guia de viagem.

Guia de uma cidade que a gente nunca visitou.

Naquela época, seria divertido. Claro, com um outro contratempo, mas divertido.

Eu já disse que me esqueci de você?

Meus amigos dizem que é uma óbvia sequela da covid.

Fiz um café forte. Trabalhei um pouco. Escrevi esse texto. Fui para o sofá. Liguei a TV. A curva dos doentes. A montanha de mortos. A intubação. A extubação. O pavor de acordar no meio de um procedimento destes.

Eu só quero apagar. Só me acordem depois das próximas eleições.

São dias difíceis para todo mundo.

Não tenho mais notícias suas.

Mágoas antigas não enchem barriga. São apenas cócegas, cosquinhas no pé.

Nossa obrigação é seguir adiante.

E espera a vacina.

Eu já me esqueci de você.

Meus amigos dizem que é uma sequela da covid.

Que você e os seus estejam bem.

 Gilberto Amendola (É repórter do “Estadão e observador da vida urbana”)


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