Especial

ENGENHEIRO FÍSICO FERNANDO HENRIQUE DE SÁ

A pergunta é: como um jalesense de 27 anos, vindo de escolas públicas, foi parar no coração do projeto que vai tornar o Brasil líder mundial na tecnologia de aceleração de partículas? Além de passar pelas escolas do Arapuã e Dom Artur, Fernando Henrique de Sá estudou inglês com a professora Eugenia Maria Ramires onde, como afirma, aprendeu muito mais do que simplesmente ler, falar e escrever na língua de William Shakespeare. Incentivado pelos pais, Jesus José de Sá, (ex-presidente da Associação de Moradores do Jacb) e Maria Aparecida, Fernando foi para a Ufscar, onde fez opção pelo primeiro curso de engenharia física do país e atualmente faz doutorado na mesma área, pela Unicamp.
Ele afirma que ficou sabendo do projeto por um amigo da Ufscar e resolveu se inscrever. Hoje, faz parte da equipe do LNLS - Laboratório Nacional de Luz Síncrotron que desenvolve o Projeto Sirius, um acelerador de partículas do tipo síncrotron, de última geração, que está sendo erguido na região do Polo de Alta Tecnologia de Campinas. O Sirius é simplesmente o projeto científico mais importante do país. Ele coloca o Brasil entre os maiores produtores de tecnologia, assumindo a liderança mundial quando se trata de luz síncrotron que é um tipo de radiação que permite observar átomos e moléculas dentro de qualquer material, em escala nanométrica, como uma espécie de mega aparelho de raios X.
Nesta entrevista ao Jornal de Jales, ele fala do projeto, do seu trabalho, da sua trajetória e da importância dos estudos e da dedicação para se atingir os objetivos voltados para os temas com os quais cada um se identifica mais. (LR)

J.J. - Vamos começar do começo: como foram os seus estudos em Jales?
Fernando - Eu comecei no JACB, depois fui para a escola do Arapuã, onde frequentei até o segundo colegial. Como lá não abriram o terceiro para o período diurno, eu fui para a Dom Artur. Também porque meus pais não queriam que eu estudasse à noite, nem que eu trabalhasse, só estudasse. Nesse período eu também fiz inglês com a professora Eugenia Maria. Foi muito importante até para melhorar minha auto-estima, como foi importante também o terceiro colegial no Dom Artur. Nas aulas de inglês a gente tinha também o lado cultural. O curso não era só focado nas coisas mecânicas. Tinha todo esse lado de entender a cultura inglesa. A gente assistia filmes e depois interpretava. Tinha muita música, também. Tudo isso ampliava o nosso jeito de pensar e entender as coisas, tornando o estudo muito mais interessante. Não era só fazer a lição.

J.J. - E os seus professores? 
Fernando - Eu sempre tive um apoio muito grande dos meus professores, apesar de que a escola pública, desde aquela época, já era muito deficitária, às vezes faltavam professores, no Arapuã cheguei a ficar sem aulas de física. Mas os professores sempre me incentivaram para continuar estudando porque eu tinha certa facilidade e isso atraía a atenção deles. Essas dificuldades fazem com que muitos alunos desistam de estudar porque têm um problema muito grande com a auto-estima, eles não acreditam que podem seguir nos estudos. Isso tem que mudar.

J.J. - A família também sempre te apoiou?
Fernando - Sim, meu pai e minha mãe sempre me apoiaram, tanto que minha mãe corria atrás, me inscrevendo nos vestibulares, meu pai me acompanhava para fazer as provas. Eles sempre me incentivaram, tanto que eles não me deixaram trabalhar para poder continuar os estudos no período da manhã.  

J.J. - Daqui você foi para a Ufscar?
Fernando – Durante o terceiro ano fiz um semestre de cursinho e no final do ano prestei vestibular na USP, Unesp e Ufscar.

J.J. - Você já gostava dessa área?
Fernando - Sempre gostei de matemática e de física. Até a escolha do curso foi meio aleatória porque eu gostava de física e matemática, mas muita gente dizia para fazer uma ou outra. Também diziam para eu fazer engenharia porque dava para ganhar mais. Aí eu vi na Ufscar que tinha engenharia física. Aí eu falei: pronto, vou fazer esse. Eu nem sabia direito o que era Ufscar e esse curso. Durante o curso eu pendi mais para o lado da física do que da engenharia. Hoje faço doutorado em física, pela Unicamp.

J.J - O que você faz no Projeto Sirius?
Fernando - Eu trabalho no grupo de física de aceleradores do LNLS. É o grupo responsável por entender o movimento dos elétrons dentro do acelerador. Temos que passar as especificações de todos os componentes que vão no acelerador. Nossa função é especificar onde vão ficar todos os imãs, qual tem que ser a força desses imãs, como tem que ser o vácuo e o esquema de aceleração. A gente projeta toda a parte magnética do acelerador. Eu trabalho com simulação, tenho que simular o comportamento dos elétrons dentro do acelerador, entender esse comportamento e estudar casos específicos para, se acontecer tal coisa, verificar o que acontece com eles, se esse imã não for exatamente dessa forma, como isso vai afetar e gerar especificações. Quando a máquina estiver funcionando a gente que vai colocar ela para funcionar e caracterizar o comportamento dela.

J.J. - Quem trabalha com você? 
Fernando - Sou eu e mais seis pessoas nessa equipe.

J.J. - Qual a utilidade de um projeto como esse?
Fernando - O Sirius, como fonte de luz síncrotron, é muito importante para o desenvolvimento da ciência no Brasil, de modo geral. Por que? O que é uma fonte de luz síncrotron? Uma fonte de luz síncrotron é uma espécie de microscópio gigante que permite você ver coisas muito pequenas. Com uma fonte de luz síncrotron você consegue ver os átomos que formam a matéria, então você consegue entender a estrutura da matéria de forma bem pontual, você consegue ver coisas muito menores do que um microscópio comum te permite ver. Isso tem aplicação em todas as áreas da ciência, desde a produção de medicamentos, até o entendimento de solos, enfim, em todas as áreas que você imaginar que tem algum material que precisa ser entendido o seu funcionamento e organização. O síncrotron é o ideal para você fazer esse tipo de pesquisa porque você tem muitas técnicas diferentes que te permitem analisar um monte de coisas distintas. 

J.J. - Por que esse projeto é o mais avançado do mundo nessa área?
Fernando - Porque ele tem uma luz com a melhor qualidade. Esse microscópio gigante depende de luz para funcionar, é uma luz diferente, um raio X, ou raio ultravioleta, ou raio infravermelho. A qualidade dessa luz determina a qualidade da luz síncrotron e o Sirius vai ter essa luz com a melhor qualidade do mundo. É uma luz bem pequena e bem focada. Você consegue focar no material que está estudando, com uma intensidade muito alta. Essa característica de ser bem pequena, bem focada e bastante intensa, ou seja, ter um brilho muito grande, vai tornar o Sirius uma máquina que vai ser por alguns anos, a melhor máquina do mundo.

J.J. - Quando se fala em acelerador de partículas se especula muito sobre a formação da matéria, a origem da vida, do universo... 
Fernando - Existem duas classes de aceleradores. Tem a fonte de luz síncrotron, com objetivo de acelerar partículas em um movimento circular para gerar luz e poder estudar a matéria e existe outra classe de aceleradores que são os chamados colisores. Nesses, sim, o objetivo deles é acelerar partículas em direções contrárias, colidirem essas partículas, que são partículas fundamentais, que formam os átomos e a partir dessa colisão entender o que forma essas partículas que formam os átomos. Esses aceleradores têm um desenvolvimento muito forte em física, procuram entender a física da matéria. Aí, sim, você vai ter uma ligação de como as coisas foram feitas, como o universo foi se organizando, quais são as leis físicas que regem o universo. Nas fontes de luz síncrotron a gente está tentando entender os átomos. É um nível acima. A gente procura entender como os átomos se organizam para poder formar a matéria. Também está ligado ao estudo da física, mas mais ainda de química, procurando observar como as reações químicas acontecem, e biológico, para saber como é a biologia da matéria. São outras perguntas que se fazem. O objetivo deles é acelerar para colidir, o nosso é para gerar luz. 
Desenvolvido por Enzo Nagata