sexta 18 junho 2021
Perspectivas

Barbáries diárias: o que você tem com isso?

Há algumas semanas venho ocupando este espaço para abordar questões de educação e mercado de trabalho, assuntos tão caros para mim. Hoje, excepcionalmente, peço licença para voltar a comentar cenas do cotidiano com a intenção de fazer o que há de humano em nós ainda refletir e, mais do que isso, acordar para a necessidade de mudarmos a realidade à nossa volta porque ela está absurda demais.

Os noticiários da semana provam este cenário de fim do mundo. Nos últimos dias, por exemplo, vem repercutindo na mídia nacional uma reportagem feita pela Agência Pública, especializada em jornalismo investigativo, sobre o fundador das Casas Bahia, Samuel Klein (falecido em 2014) e seu filho, Saul Klein, até então dois “cidadãos de bem”, considerados ícones da economia nacional.

Depois de ouvirem dezenas de fontes e terem acesso a muitos processos judiciais, a Pública informa que o “rei do varejo” teria usado seu poder como empresário bem-sucedido para manter, durante décadas, um esquema de aliciamento de crianças e adolescentes para a prática de exploração sexual dentro da sede da empresa, em São Caetano do Sul, além de outros locais em Santos, São Vicente, Guarujá e Angra dos Reis. Sim, eu escrevi um velho abusando sexualmente de crianças e menores de idade em troca de um tênis, por exemplo.

Nos depoimentos à Justiça, funcionários (no plural) das Casas Bahia confirmaram que era comum meninas e jovens menores de idade aparecerem nos caixas das lojas com bilhetes assinados por Samuel Klein para retirarem dinheiro ou produtos. Contaram que, logo pela manhã, alguém da diretoria já avisava para os caixas separarem o dinheiro. Ou seja, os crimes eram comuns, quase diários.

E esses crimes não cessaram com a morte do patriarca em 2014. As acusações, inclusive mostradas em reportagem especial do Fantástico, da Rede Globo, semanas atrás, mostram que Saul Klein é hoje investigado por aliciamento e estupro de mais de 30 mulheres.

Só este caso dos Klein já seria suficiente para nos fazer refletir sobre a importância de não compactuar com crimes que presenciamos diariamente, mas, por algum motivo errôneo, acreditamos que não é da nossa conta. Não é?

Quero também analisar o caso do menino Henry, de 4 anos, morto após uma sessão de tortura, segundo a polícia, quando ele teve órgãos internos dilacerados por espancamento com chutes e socos. O acusado é o padrasto, um vereador do Rio de Janeiro, com a cumplicidade da mãe, que estava no mesmo apartamento na hora dos fatos.

Não foi a primeira vez que Henry sofreu violências. A babá já tinha alertado a mãe, a avó da criança, a tia da criança. Nenhuma delas salvou Henry. E o pai, separado da mãe, não entendia por que a criança vomitava quando era preciso voltar para a nova casa da mãe.

Os sinais de Henry não foram ouvidos nem entendidos. Não houve interferência no caso das meninas pobres que se permitiam abusar por um par de tênis. Hoje, a agonia dos pacientes que estão acordando intubados, sem medicação, parece não ser nossa. A insegurança alimentar que já atinge 117 milhões dos 210 milhões de brasileiros também parece que não é problema nosso.

Ainda há algo de humano em nós?

  Ayne Salviano

(Professora e empresária do setor educacional em Araçatuba) 

Desenvolvido por Enzo Nagata