Artigo

A profanação do templo

MEDICINA/EVIDÊNCIA

O antigo vestibulando de medicina tinha dois sonhos: o primeiro era ser aprovado numa faculdade pública (que na minha época eram sinônimo de excelência de ensino), o segundo – e talvez o mais cobiçado – era o de poder andar de branco, com um estetoscópio pendurado no pescoço. Nos arredores da Universidade Federal Fluminense, onde me formei, era comum ver carecas – os indefectíveis bichos – vestidos como se estivessem indo para a primeira comunhão. Era errado sair à rua de uniforme, tanto por ser uma contravenção, quanto porque era prematuro. Nós só ganharíamos o direito de frequentar o hospital-escola dali a longínquos dois anos, quando finalmente completássemos o ciclo básico. Os nossos veteranos, alunos que já estavam no Hospital, de acordo com o jargão, haviam galgado o direito de adentrar ao Templo, com toda a deferência do ato. Quando obtínhamos a honra de andar pelas dependências do Hospital sentíamos que finalmente o curso de medicina começava. Só então, cumpridos aqueles quatro primeiros períodos, podíamos, enfim, concretizar aqueles nossos dois sonhos. Íamos para o Hospital. O Hospital era a vitória. Podíamos inflar o peito e dizer: - “estou no Hospital!” (a quem nos perguntasse, ou não). No Hospital só se entra por mérito, por prêmio, por certificação de uma história de preparação, de avaliações severas, de espera, e de sobretudo respeito. Assim, para o Médico, o Hospital é Sagrado. Antes de ser o local onde ele desempenha a sua função, é a sua referência, sua casa, seu castelo.

No Hospital residimos por um período não inferior a dois anos. Na residência, a nossa casa não nos acolhe em camas, mas em salas de conforto-médico e não recebemos nossos amigos no living. Nossos encontros são realizados na biblioteca, nossos jantares são no refeitório e nossos amigos são também colegas de profissão e nossas saídas não são feitas em carros, mas em ambulâncias. Para a formação de um bom Médico, então, são necessários no mínimo seis anos de frequência a corredores, noites de plantão, natais celebrados com talheres de plástico e bips em vez de sinos. Assim é que se adquire o direito de pertencer ao ambiente, não por meio de um mandato parlamentar. A atividade legislativa não contempla fiscalização de ambiente nosocomial. A constituição não prevê tal prerrogativa em sua seção V, que trata especificamente dos deputados e senadores, ou na seção VII que aborda as comissões; nem faz o regimento interno da câmara. Neste não há referência ao pretenso direito ou dever individual ou coletivo, seja pela mesa, da presidência, ou das comissões, de fazerem verificação in loco de instituições de saúde públicas ou privadas. Quando alguns parlamentares, sob qualquer pretexto, no uso das prerrogativas de servidores públicos, se julgarem na obrigação de fiscalizar atividades atinentes aos seus mandatos, não podem prescindir do uso dos mecanismos legais disponíveis para tal serviço, como os tribunais de conta, as polícias e o ministério público.

As pessoas acostumadas ao respeito que as instituições merecem, e o Hospital é uma instituição universal, conhecem e respeitam seus próprios limites. Um exemplo a ser observado foi oferecido pelo Professor Bruno Caramelli, professor associado da Faculdade de Medicina da USP, cardiologista de renome nacional, que entrou com representação no Ministério Público Federal - SP pedindo aos procuradores a abertura de inquérito “para apurar a responsabilidade civil, administrativa ou penal da diretoria do CFM” por tolerar ou omitir o contestável tratamento precoce (sic) contra covid. O Professor Caramelli, que cumpre as exigências não só para adentrar, mas para conduzir nossos templos sagrados, ensina como deve ser a ação de quem se sinta alijado de proteção legal ou defenestrado de suas atribuições éticas. Ele não foi pessoalmente defender a posição que a comunidade médica está carente de adotar. Antes, usou do respeito ao devido processo legal e não profanou templos para fazer valer seu direito de defesa da ética.

 Dr. Manoel Paz Landim

(Cardiologista, Mestre em Medicina pela FAMERP, Preceptor e Médico do Ambulatório de Hipertensão do Departamento de Clínica Médica da FAMERP, São José do Rio Preto)



Bruno Caramelli, professor da USP, vai fazer representação no Ministério Público Federal 

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