sexta 18 junho 2021
Perspectivas

A asfixia da lógica

O princípio básico de uma mensagem escrita é ser coerente e ter clareza na articulação das ideias, de modo a oferecer uma fácil interpretação. O escritor funcional é aquele que não comete repetições, que não se contradiz e que sabe destacar os pontos de relevância, de tal modo que consegue se comunicar com sucesso. Contudo, para ser considerado um emissor acima da média, é preciso – além do domínio da técnica – manusear os conectivos e saber rechear seu texto com elementos que prendam a atenção do leitor. É assim que se consegue deixar a notícia interessante, mesmo que a mensagem final não seja agradável. Hoje não conseguiremos atender sequer essas regras elementares. Tentaremos dar cores às letras para escapar da esfera comezinha, nos aproximando ao máximo do nível mediano, mas o tema é árduo.

Entender o que foge do razoável transcende o campo da lógica, comprometendo o debate inteligente dos temas. O Brasil vive uma era em que a sociedade abandonou exatamente a tão necessária coerência. E é por isso que escrever sobre essa realidade distorcida ocasiona não só o dissabor das leituras truncadas, mas também os vícios de interpretação e o resvalar no viés ideológico. Porém, como ignorar que a exaltação dos símbolos nacionais, de onde se destaca a bandeira, deixou de ser uma manifestação de patriotismo para se associar a um partidarismo político? Como justificar que uma geração órfã de sentimentos nacionalistas de repente se cobriu de verde e amarelo para chancelar a abolição da democracia como base para o diálogo? Seria racional acreditar que – num espaço de 52 anos – tivéssemos esquecido os terrores do regime militar e voltássemos a pedir seus instrumentos de repressão?

Caso esse texto atendesse as recomendações clássicas, o presente parágrafo mostraria os argumentos do autor, estimulando o raciocínio e a consequente discussão. Mas o nó vai apertando a cada passo que se dê em direção oposta ao erro e a escrita lembra mais um duelo. É difícil argumentar com a iconoclastia que marca o abandono dos preceitos fundamentais de humanidade. Nossa sociedade também perdeu a vontade de argumentar, de expor e defender ideias com solidez de conceitos, dentro do campo legal. Não é possível estabelecer os limites dentro dos quais se trava a discussão. Eis o porquê do perigo. Anos se passaram até que a comunicação instantânea se consolidasse, passando do telégrafo para o telefone. Contudo, eis que em plena era da maior expressão da tecnologia, as pessoas contraditoriamente preferem se expressar enviando áudio por meio de – pasmem – aplicativos de conversas. Foi eliminada por completo a chance do debate ao vivo, da oitiva do argumento contrário.

Não será o vírus, ainda que haja contradição deste autor, que porá fim a uma era. O que continua nos destruindo é a ignorância. E é essa frase que encerra esse artigo, justamente onde deveria estar a conclusão das ideias transmitidas. Não podemos mais fazer conclusões. Nós construímos um mundo onde o efêmero reina sobre as conquistas dos pensamentos, oprime a razão e asfixia a lógica.

 Dr. Manoel Paz Landim

(Cardiologista, Mestre em Medicina pela FAMERP, Preceptor e Médico do Ambulatório de Hipertensão do Departamento de Clínica Médica da FAMERP, São José do Rio Preto)

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