Foi num quadro, “o grito”, que o artista norueguês Edvard Munch condensou as várias facetas envolvidas da angústia e da solidão. Na tela estão pintados símbolos, como a ponte, que significa a travessia dos momentos difíceis da vida; também há pessoas desenhadas com traços retificados, completamente distintos da personagem principal, como se pertencessem a um outro mundo, de modo a deixar evidente a indiferença dos demais frente ao sofrimento do semelhante; o céu de cor vermelha reforçando o sentimento de ameaça (referência a um desastre natural ocorrido naquela época, a erupção do vulcão Krakatoa, em 1883) e também um vilarejo que apenas se insinua nas tintas com uma igreja distante e nebulosa, simbolizando o quanto a esperança está longe e mal definida quando o caos se aproxima, para culminar, obviamente, com a emblemática personagem sem um rosto detalhado, apenas sugerindo uma face humana, como quem perde suas características frente o desespero. Essa clássica pintura é o espelho de sentimentos atávicos, como a dor que nos iguala quando surge no horizonte.
A mesma dor que faz brotar uma obra artística tão genial, também é responsável por conquistas médicas inusitadas, como as que aconteceram em 2021, em tão breve espaço de tempo. Desenvolveram-se dois antivirais específicos para COVID, o Molnupiravir (Lagevrio, Merck) e Nirmatrelvir (Paxlovid, Pfizer), que acabaram de conseguir o aval do FDA (https://www.fda.gov/media/155050 e https://www.fda.gov/media/155054) nos últimos dias de 2021. A humanidade está ameaçada e houve algumas respostas, como a descoberta da possibilidade de transmissão assintomática do COVID (Michael A. Johansson, JAMA Netw Open. 2021;4(1):e2035057), de desenvolvimento de sequelas até seis meses depois da infecção (Jennifer K. Logue JAMA Netw Open. 2021;4(2):e210830), e outras pesquisas no campo cardiológico, comprovando que a ingesta inadequada de sódio e potássio concorrem para o surgimento de doenças cardiovasculares (Yuan Ma, November 13, 2021 DOI: 10.1056/NEJMoa2109794) e que a empaglifozina, inicialmente desenvolvida para o tratamento de diabetes, tem excelentes resultados também no tratamento de insuficiência cardíaca (Stefan D. Anker, October 14, 2021 N Engl J Med 2021; 385:1451-1461).

A mesma dor que faz brotar uma obra artística tão genial, também é responsável por conquistas médicas inusitadas

Mas foi um prosaico filme comercial, “Não olhe pra cima” (Don’t look up),
de Adam McKay, que “descobriu” a degradação da humanidade


Mas foi um prosaico filme comercial, “Não olhe pra cima” (Don’t look up), de Adam McKay, que “descobriu” a degradação da humanidade. Entre tantas conquistas, ainda há espaço para um modo peculiar de se comportar frente às ameaças. O diretor consegue mostrar como os governos e os veículos de comunicação dão as costas a temas importantes, em nome dos seus interesses eleitorais e econômicos. O nome do filme é também uma referência a uma parte do enredo, quando as pessoas são levadas a não acreditar nos fatos, exatamente o que ocorre com os negacionistas, os ultradireitistas e os ignorantes de modo geral. Quando a sétima arte reproduz as reações humanas frente as ameaças à sua existência com tanta perfeição é porque nos tornamos tão caricatos e burros, que um grito não é mais capaz de fazer ouvir o desespero.

Dr. Manoel Paz Landim
(Cardiologista, Mestre em Medicina pela FAMERP, Preceptor e Médico do Ambulatório de Hipertensão do Departamento de Clínica Médica da FAMERP, São José do Rio Preto)

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