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Você quer ser um vira-lata?

Por Eduardo Britto
30 de junho de 2019
Eduardo Britto
Merecedor de respeito e atenção, os acadêmicos, a classe científica e os postulantes a chegar neste patamar, passaram a enfrentar pesados impropérios neste país diante de um discurso raso e raivoso. Frequentar os bancos da mais alta cúpula do conhecimento no Brasil tornou-se, de repente, pejorativo e inoportuno. 
Concomitantemente ao discurso repelente à universidade, monta-se um cenário de caos por parte de uma parcela da classe política que dissemina a aversão sobre este espaço científico, cortes nos orçamentos, ameaças à liberdade de pensamento e expressão, preconceitos e rótulos que são utilizados no mais baixo vulgarismo.
O mais espantoso é que muitos dos disseminadores desse rotulismo sequer imaginam como decorre o cotidiano acadêmico e científico, além de serem utilizados como marionete de pessoas que forjam currículos ao mentir que cursaram em grandes centros acadêmicos mundiais, como Harvard.
A mesma mola propulsora que dissemina esse modelo e aponta o dedo para criminalizar a universidade, aperta a tecla “delete” em milhões para educação tornando o seu acesso ainda mais dificultado. Mas, os mesmos donos desses dedos já beberam ou bebem dessa água que eleva a sua condição profissional. 
Entenda. A ciência e a universidade estão presentes em nosso cotidiano e contribuem para a evolução da humanidade tornando a vida mais simplificada. É necessário, para isso, uma profunda reflexão capaz de admitir que o elementar ato de lavar louças utilizando um produto detergente foi antecedido por inúmeros estudos, pesquisas, laboratórios e análises que são as universidades capazes de desenvolver.
É mister considerar que determinadas colocações com pouco cunho científico podem ser compreensíveis num bate papo, num noticiário jornalístico ou na conversa de botequim. Mas, jamais podem ser entendidas como base para o meio acadêmico. Essa valorização científica transforma uma sociedade. A sua desvalorização, deteriora.
Determinados posicionamentos e rótulos são feitos a partir de um cretinismo e de uma desonestidade que devemos colocar um basta. Cientistas, acadêmicos, professores e os suplicantes a esta posição representam a reserva intelectual do país. Essa reserva lê, não se presta a uma simples tuitada. Essa reserva coleciona livros lidos, não compila arquivos “pdf” numa pasta do notebook. Essa reserva estuda clássicos, não se embasa num mero vídeo de YouTube. 
Devemos seriedade à classe erudita, culta, compromissada e fiel à formação conceitual, à ciência e à academia que não inventa da própria cabeça. Mas, trabalha com esmero e argúcia para fundamentar suas teses.
Essa base conceitual e acadêmica não muda com estalar de dedos e muito menos é refutada pelo “tiozão do zap” que compartilha um texto do grupão da galera. Essa cientificidade carece de respeito e só aceita mudanças ou substituição quando outra base conceitual apresenta um embasamento mais amplo e fundamentado. E, isso, requer mais pesquisa e ciência. 
Por isso, levemos a ciência e a universidade ao patamar de mais elevado respeito. Incentive os jovens a ocuparem os espaços acadêmicos. Do contrário, estamos fadados ao eterno povo vira-lata da periferia do mundo. 

Eduardo Britto 
(Professor de Geografia do Colégio e Curso Objetivo de São Paulo, graduado pela UNESP, especialista em Gestão Ambiental pela UFSCAR e Mestre em Ensino de Ciências pela UFMS)