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Você não precisa de artistas?

Por Ayne Regina Gonçalves Salviano
23 de fevereiro de 2020
Vivemos em uma sociedade doente. Onde o problema não é o capitalismo, mas o consumismo exacerbado. Onde muitos que se autodenominam “coachings” gritam até para os que não querem ouvir que os bem-sucedidos são os que ostentam riquezas e não valores. Onde “personalidades” da internet fazem tutoriais para te dizer a cor e o corte do seu cabelo, o tamanho dos cílios postiços ou do peito siliconado, o que comer ou não, onde passear ou não, o que comprar ou não, como se soubessem tudo. Não sabem. Só ganham dinheiro tirando as nossas vontades e impondo o que o mercado paga (e muito bem) a eles.
Sim, temos uma população fragilizada. Doente de corpo e de alma. Sem trabalho digno, sem comida decente, sem o mínimo de saúde física nem mental. Sem educação, sem cultura, sem pensamento próprio. Muitos seguem qualquer um que grite mais alto porque acreditam que ele é mesmo o mais forte. Nunca é. E para manter esse projeto de civilização onde poucos têm tudo e a maioria não tem nada (só a esperança cega invocada por aqueles que usam o nome de Deus em vão) é preciso silenciar quem pensa: professores, jornalistas, estudantes, artistas. 
Nesse viés, convido os leitores para conhecerem uma obra da cantora e compositora Zélia Duncan. Recentemente ela teve um vídeo que “viralizou” nas redes sociais. Nele, a artista faz um monólogo (se chama Vida em Branco). São ideias que reproduzo agora para pensarmos juntos. E estendermos esses questionamentos para outras áreas do conhecimento, como a Educação e o Jornalismo. Segue o texto de Zélia:
“Você não precisa de artistas? Então me devolve os momentos bons. Os versos roubados de nós. As cores do seu caminho. Arranca o rádio do seu carro, destrói a caixa de som. Joga fora os instrumentos e todos aqueles quadros, deixa as paredes em branco, assim como a sua cabeça. Seu cérebro cimento, silêncio, cheio de ódio. Armas para dormir, nenhuma canção de ninar, e suas crianças em guarda, esperando a hora incerta para mandar ou receber rajadas. 
Você não precisa de artistas? Então fecha os olhos, mora no breu. Esquece o que a arte te deu, finge que não te deu nada. Nenhum som, nenhuma cor, nenhuma flor na sua blusa. Nem Van Gogh, nem Tom Jobim, nem Gonzaga, nem Diadorim. Você vai rimar com números. Vai dormir com raiva, e acordar sem sonhos, sem nada. E esse vazio no seu peito não tem refrão para dar jeito, não tem balé para bailar.
Você não precisa de artistas? Então nos perca de vista. Nos deixe de fora desse seu mundo perverso, sem graça, sem alma...”
E você, ainda acredita que não precisa de artistas?

Ayne Regina Gonçalves Salviano 
(é jornalista, professora e gestora educacional da Damásio Educacional e Criar Redação em Araçatuba)