REGISTRO

“Viu, sentiu compaixão e cuidou dele”, Lc 10, 33-34

Mal deixamos de ouvir “adeus ano velho, feliz ano novo” e já podemos ouvir em nossas ruas Chiquinha Gonzaga dizendo “ô abre alas, que eu quero passar!”. Cazuza diria que o tempo não para e nesta dinâmica de movimento o tempo de conversão já aponta no horizonte. Logo, logo será quaresma, caminho de penitência que nos conduzirá à alegria da Páscoa do Senhor.
Nesta jornada quaresmal a Igreja propõe-nos o forte chamado que o profeta Joel dirige ao povo de Israel: “Agora, diz o Senhor, voltai para mim com todo o vosso coração, com jejuns, lágrimas e gemidos” (2,12). Convida toda Igreja para o jejum, a oração e a penitência. O chamado é coletivo, aliás a dimensão comunitária é um elemento fundamental na vida cristã, Cristo veio para reunir os filhos de Deus dispersos. 
Dentro desta dimensão da conversão e do comunitário, a Igreja do Brasil propõe aos seus fiéis um modo privilegiado de vivência da fé neste período quaresmal, a Campanha da Fraternidade. Instrumento pastoral que há cinco décadas convida os cristãos a alargarem os olhares e a perceberem que o pecado ameaça a vida como um todo. Neste ano o tema proposto é “Fraternidade e Vida: Dom e Compromisso” e o lema “Viu, sentiu compaixão e cuidou dele” Lc 10, 33-34. 
Para reflexão, oração e ação, é proposto o texto do Bom Samaritano, Lc 10, 25-37, no qual um samaritano aproximando-se, vê um homem caído a beira da estrada e tendo compaixão, inclina-se e cuida. Ele não pergunta quem era o caído, mas vendo-o, rompe com a indiferença e cuida.  Abandona a indiferença que nos afasta e nos leva à incapacidade de estabelecer relações genuinamente humanas e simplesmente cuida.
A ação do samaritano em um país tão polarizado como o nosso é um convite a romper as mesquinharias políticas ou ideológicas e entender que atualmente existem milhões de desempregados, famintos e abandonados, caídos à beira do caminho que precisam não apenas de nossos textos nas redes sociais, mas principalmente do nosso cuidado. É preciso olhar para os erros do passado e aprendendo com eles entender que todos somos convidados para a obra de expansão do Reino de Deus. Todos devemos nos inclinar e cuidar. 
As cinzas em nossas cabeças mostrarão a urgência de mudança, “lembra-te que és pó, e ao pó retornarás”. Portanto, deixemos de ser telespectadores para sermos atores da construção de uma sociedade samaritana, afinal de contas, a fome, doença e abandono não nos deixam esperar. 

Washington Henrique da Conceição
(É seminarista da Diocese de Jales e médico)
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