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Violência policial: reflexo da sociedade

Por Ayne Regina Gonçalves Salviano
15 de dezembro de 2019
Ayne Regina Gonçalves Salviano
A polícia brasileira não é violenta. Violenta é a sociedade brasileira. Explico: o Brasil não foi descoberto, os portugueses só vieram tomar posse. Não houve aproximação amigável com os índios, eles foram dominados, escravizados e, aqueles que resistiram, acabaram dizimados.  
Aquela história de bandeirante herói que entrava na mata fechada como desbravador, já se sabe, é uma romantização do massacre contra os indígenas. Até o escritor José de Alencar, autor do clássico “Iracema”, repensaria a relação entre Martim, o branco colonizador e sua cultura europeia, com “a virgem dos lábios de mel”, ingênua. 
A obra, que para muitos é o mito da fundação da identidade brasileira, precisaria de outra análise agora. Quem sabe Iracema não morreu por ter consciência do que Martim fazia aos povos indígenas de outras regiões do país?
Enfim, da colonização passamos para a escravidão e entendemos que fatores históricos explicam os altos índices de violência existentes ainda hoje no Brasil. Todos sabem que o sistema escravocrata foi sustentado por uma máquina repressora formada pelos ricos com a conivência do Estado. 
Então, quando policiais são filmados encurralando pessoas nas zonas mais pobres das cidades e batendo nelas a ponto de provocar mortes, o que vemos é, de novo, uma sociedade tão violenta que até o policial, pago com dinheiro público para proteger o cidadão, acredita que todos os pobres e pretos são uma ameaça. 
Mas a verdade é que o mesmo “pancadão” com funk acontece de forma recorrente nas áreas nobres (entenda ricas) de todas as cidades, mas o que muda nestes ambientes é o público, branco. Por isso não se ouve dizer que a polícia aparece por lá. Elza Soares já cantou: “a carne mais barata do mercado é a carne negra”.
O Núcleo de Estudos da Violência da USP – Universidade de São Paulo e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública fizeram uma levantamento que aponta: 6.160 pessoas foram mortas por policiais em 2018, um aumento de quase 20% se comparado ao ano anterior. Os números devem subir este ano porque governadores como João Dória (São Paulo) e Wilson Witzel (Rio de Janeiro) adotaram políticas agressivas para “cancelar CPFs”.
A verdade é que quando a sociedade violenta flexibiliza a violência policial, uma parte do efetivo entende a mensagem como uma licença para matar ou “fazer justiça com as próprias mãos”. E é justamente nessa hora que a sociedade inteira tem que temer. 

Ayne Regina Gonçalves Salviano
(É jornalista e professora. Gestora do Damásio Educacional em Araçatuba e do Criar Redação Araçatuba)