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Vidas negras importam

Era uma vez um português colonizador que chegou ao Brasil e se apaixonou por uma índia linda, com o talhe da palmeira, os cabelos da cor da asa da graúna e os lábios de mel. E a história de Iracema e Martim poderia terminar bem assim, com um final feliz “para sempre”, mas não foi isso o que aconteceu. Nem na ficção de José de Alencar o branco foi herói.

Aliás, a história da colonização do Brasil contada hoje tem exatamente outro viés, muito menos romantizado. Uma pesquisa científica em andamento na USP (Universidade de São Paulo) denominada “DNA do Brasil”, considerada o maior estudo sobre o genoma brasileiro, indica que a miscigenação no país aconteceu, infelizmente, pelo estupro sistemático de homens brancos contra mulheres negras e indígenas.

Aqui a violência sempre foi estrutural, como o racismo. Dessa forma, o Dia da Consciência Negra, celebrado hoje, sexta-feira (dia 20), é, sim, momento de aproveitar para gritar mais alto que vidas negras importam.

É a hora de confirmar que a primeira vereadora negra da história de Joinville não pode ser ameaçada de morte após o pleito democrático em pleno século 21. E é também a oportunidade de avisar a sociedade que o gerente da loja de eletrodomésticos do shopping de Governador Valadares (MG), humilhado na frente de funcionários e clientes, não pode ficar sem justiça.

Não é mais concebível viver em uma sociedade que sufoca, espanca, atira e mata pela cor da pele. É preciso enfatizar que todos aqueles que no passado imaginaram uma raça superior entre os seres humanos já foram desmentidos pela ciência e transformados em escória da História.

Por outro lado, é louvável ver despontar iniciativas como a do Magazine Luiza, que realizará, em 2021, um Programa de Treinamentos somente para pretos e pardos. A empresa quer mudar a sua própria estrutura onde há um abismo entre os milhares de funcionários negros nos níveis de menores salários e pouquíssimas pessoas pretas nos cargos de chefia. Depois do Magazine Luiza, outras grandes empresas já anunciaram planos semelhantes.

Ainda que existam pessoas como a cofundadora do Nubank, Cristina Junqueira, que no Programa “Roda Viva” da TV Cultura recentemente afirmou que tem “dificuldade de encontrar candidatos negros adequados para as exigências das vagas na empresa” e que não quer “nivelar por baixo”, existem também pessoas como a ex consulesa da França, Alexandra Loras, que criou uma plataforma digital chamada Protagonismo onde reuniu mais de 7 mil currículos de mestres e doutores negros.

Ou seja, não há falta de mão de obra negra qualificada, trata-se de discurso preconceituoso mesmo, que precisa acabar. Como precisa acabar este preconceito histórico do racismo que se sustenta apenas na ignorância.

Ayne Regina Gonçalves Salviano

(é jornalista, especializada em Educação, com mestrado em Comunicação e Semiótica e MBA em Gestão)