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Viagem precoce

por Roberto Gonçalves
11 de dezembro de 2017
Zoroastro dos Santos
Na metade da década de 50, hora do almoço, calor difícil de vencer, estava vendo os cartazes do Cine São José, quando um menino desconhecido se aproxima e pergunta se eu morava em Jales.
Respondo que sim, iniciamos aquela tradicional conversa de aproximação que somente as crianças conseguem. Ele pergunta meu nome, respondo que era Roberto e ele se apresenta com seu imponente nome grego, dizendo que havia mudado para Jales no dia anterior e eu era a primeira pessoa que ele conhecia e desejava que fosse também o primeiro amigo.
E assim nasceu aquela amizade profunda e verdadeira, nunca abalada e cada vez mais fortalecida.
Como o calor estava infernal e eu já tinha combinado com Calango uma natação no Córrego do Cipozinho, convidei o menino de nome grego para ir com a gente e daí para a frente Zoroastro dividiu com Calango o título de maior amigo.
Éramos amigos na alegria e na fatalidade. Através de Zoroastro fiquei sabendo da morte de Calango e outros amigos.
A ultima vez que conversei com Zoroastro foi na Praça João Mariano de Freitas, defronte o Hotel do Vavo, outro grande amigo das artes e felicidade de vivermos a infância e juventude em Jales, quando fomos felizes e não sabíamos.
A conversa de despedida com “ZOU”, como sempre chamei Zoroastro, durou mais de uma hora. Só conversa boa, alegria, bom humor o tempo todo. E não falou que estava doente, poupando-me de dividir com ele a dificuldade de enfrentar e vencer a tristeza da partida.
Zoroastro deixou para mim uma exemplo que sempre copiei na relação de amizade com as pessoas. Sempre dizia que amizade é se doar sem cobrar nada em troca. Tal filosofia de vida foi o alicerce moral de sua existência.
Decidi escrever algumas linhas de saudade porque Zoroastro foi um amigo que a gente não esquece.
Triste com sua partida, mas revoltado com a precocidade de sua viagem, vou brigar com Zoroastro pela primeira vez, porque não é justo deixar tanta gente chorando, começando pela sua família, seus amigos e toda Jales que o conheceu.
Zoroastro viverá para sempre em nossos corações, mas a dor de não ouvir mais sua voz é difícil de ser vencida.
A verdade é que a morte, já dizia Vinicius de Moraes, é a angústia de quem vive. E como é difícil pensar na realidade da morte.
Guimarães Rosa dizia que morrer é fácil, viver é que são elas!
E viver sem os que morreram é mais difícil ainda...
Sei que Zoroastro está no melhor canto do Senhor, talvez preocupado com nossas lágrimas aqui na terra.
Fique tranquilo, ZOU, tentaremos segurar as pontas!

Roberto Gonçalves 
(é escritor, psicanalista e presidente do Instituto Brasileiro de Psicanálise Contemporânea)