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Um enredo oculto da política brasileira

Perspectivas por Marina Nossa Neto
16 de junho de 2019
Marina Nossa Neto
O surgimento de novos meios de informação tornou cada vez mais difícil o controle de governos e a monopolização da informação de interesse público. Hoje, há um novo tipo de independência para podermos discutir sobre questões que não poderiam ser discutidas antes, ou consumir informação que é meramente debatida em canais tradicionais de televisão, rádio, jornais ou revistas. Na realidade, se olharmos para além da mídia dominante conquistada pelo entretenimento e noticiários sem abordagem crítica, o cenário da mídia brasileira independente cresce gradualmente. O maior e mais atual exemplo deste aspecto é o site The Intercept Brasil. Com o intuito de se “dedicar à responsabilização dos poderosos por meio de jornalismo destemido e combativo”, The Intercept Brasil é uma agência de notícias que baseia suas investigações em contundentes análises com um time de jornalistas renomados e liderados por Glenn Greenwald (ganhador de Prêmio Pulitzer), jornalista norte-americano naturalizado brasileiro.
E foi Glenn, juntamente com Leandro Demori, Rafael Martins e Victor Pougy que a mais recente revelação sobre a Operação Lava Jato veio à tona. O The Intercept Brasil publicou no último domingo (9), três reportagens explosivas expondo discussões internas e atitudes altamente controversas, politizadas e legalmente duvidosas da força-tarefa da Lava Jato, coordenada pelo procurador renomado Deltan Dallagnol, em colaboração com o atual ministro da Justiça, Sergio Moro.
As reportagens mostram, entre outros elementos, que os procuradores da Lava Jato falavam abertamente sobre seu desejo de impedir a vitória eleitoral do PT em 2018 e tomaram atitudes para atingir esse objetivo; e que o juiz Sergio Moro colaborou de forma secreta e antiética com os procuradores da operação para ajudar a montar a acusação contra o ex-presidente Lula. Tudo isso apesar das sérias dúvidas internas sobre as provas que fundamentaram essas acusações e enquanto o juiz continuava a fingir ser o árbitro neutro neste jogo.
O único papel do The Intercept Brasil na obtenção desse material foi seu recebimento por meio de fonte anônima, que segundo o site, “havia contatado há semanas” (bem antes da notícia da invasão do celular do ministro Moro, na qual o ministro afirmou que não houve “captação de conteúdo”) e informou de que já havia obtido todas as informações e estava “ansioso para repassá-las a jornalistas”. Informar à sociedade questões de interesse público e expor transgressões são princípios que guiam o fazer jornalístico em investigações como essa.
A divulgação das conversas (do aplicativo de mensagem Telegram) foi crucial para compreender a virada da opinião do público contra o PT, ajudando a preparar o terreno para o impeachment de Dilma em 2016 e a prisão de Lula em 2018. O princípio invocado para justificar essa divulgação foi o mesmo em que o site vem aderindo nas demais reportagens sobre esse acervo: o de que uma democracia é mais saudável quando ações de relevância se mantém em segredo por figuras políticas poderosas são reveladas ao público. Tendo em vista o imenso poder dos envolvidos e o grau de sigilo com que eles operam– até agora –, a transparência é crucial para que o Brasil tenha um entendimento claro do que foi planejado. A liberdade de imprensa existe para jogar luz sobre aquilo que as figuras mais poderosas de nossa sociedade fazem às sombras. Impunidade aos políticos não pode se tornar uma rotina. O acervo publicado pode ser acessado em www.theintercept.com/brasil/.

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(Jornalista Pesquisadora. Mestranda pela Universidade de Buenos Aires)