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Temos Dráuzio Varella

Perspectivas por Luiz Carlos Seixas
06 de maio de 2018
Luiz Carlos Seixas
Basta olhar a lista de candidatos para ver que andamos carentes de nomes. Não é de hoje. Neste ano, a disputa será numa esfera pra lá da cidade onde vivemos. A absurda lista de candidatos a vereador e prefeito, só em 2020. Por enquanto, temos que nos contentar com a absurda lista de candidatos a deputado, senador, governador e presidente da república. Se no topo da pirâmide a coisa está pavorosa, não vamos aqui desperdiçar papel e tempo falando dos escalões abaixo. A propaganda eleitoral se incumbirá dessa difícil missão: achar e propagar as qualidades de tanta gente vazia.
Mas não faltam outras listas para a gente ocupar o tempo. Lista, aliás, é uma coisa que inventaram mais para gerar debate do que se tentar um consenso. Qualquer lista. Dos melhores filmes, dos melhores discos, livros, times, jogadores, pilotos, cachaças, cidades para se viver...
Lista pouco comentada é a dos candidatos ao Prêmio Nobel. Nessa disputa a pessoa é indicada por um colegiado internacional e não candidata de si mesmo, ou por si mesmo. E tem prêmio para diversas categorias. Nas artes, na ciência e, como que pairando sobre todas, o Prêmio Nobel da Paz.
E, assim como o Vale do Jequitinhonha, região das mais pobres do Brasil, pode concorrer e ganhar (não com o meu voto) o prêmio de melhor cachaça, um país em frangalhos como o nosso pode ver um de seus filhos virar Nobel. E como um país em frangalhos é carente de humanistas, acho que temos aí um potencial candidato ao Prêmio Nobel da Paz: Dráuzio Varella.
Em tudo o que faz, Dráuzio se preocupa com o próximo. Seus livros, antes de serem premiados e se tornarem sucesso, foram escritos para expor a dor alheia e dela tirar lições. Seus quadros na TV seguem a mesma receita. É dos pioneiros no combate à Aids e talvez o mais ferrenho adversário dos males decorrentes do tabagismo, alcoolismo e sedentarismo. Como oncologista (médico especialista no tratamento de câncer) dos mais renomados não coloca o seu conhecimento à disposição de quem pode pagar uma consulta, um tratamento – também trabalha como voluntário em penitenciárias há décadas. Ao invés de amarrar o seu burro na sombra, dirige um projeto prospectivo de plantas na Amazônia, tendo feito mais de 50 viagens ao inferno verde onde, em 2004, contraiu a febre amarela que por muito pouco não o matou. Dráuzio não vai à Amazônia passear, pescar... Vai plantar e regar a semente de alguma coisa que pode livrar a humanidade de alguns cânceres e doenças resistentes a antibióticos. 
O menino do Brás que perdeu a mãe aos 4 anos de idade é um exemplo de alguém que se importa com os outros, em todas as esferas. Num infecto presídio, num país em frangalhos, num mundo indiferente a dor do próximo. Aos 74 anos de idade, esbanjando disposição, Dráuzio Varella seria um jovem Prêmio Nobel a levar para o mundo o exemplo da sua luta contra a indiferença. 

Luiz Carlos Seixas  
(jalesense, instrumentista e compositor)