Perspectivas

Tem dias que a gente cansa

Tem dias que a gente cansa de ter de sorrir pra quem não contribui em nada para o nosso dia ficar melhor. Pelo contrário, muitas vezes até atrapalha com suas vibrações negativas, suas queixas repetitivas e aquele costume chato de julgar tudo e todos.

Tem dias que a gente cansa de se fazer de otário somente para evitar uma discussão mais acalorada, principalmente se for em família ou no ambiente de trabalho, embora ambos, muitas vezes, sejam tóxicos demais.

Tem dias que a gente cansa de explicar a mesma coisa, uma, duas, três vezes, de várias formas, pra quem não está disposto a aprender, só quer curtir o momento e exploda-se a vida (na verdade, a influenciadora Gabriela Publiesi usou um palavrão mesmo, impublicável neste espaço).

Tem dias que a gente cansa de “se fazer de morta” para pessoas que apenas querem nos explorar e fazem isso sem a menor cerimônia, porque acham mesmo que devemos fazer aquilo que elas querem que façamos na hora que elas querem.

Tem dias que a gente cansa de ouvir o noticiário sem gritar, nem bater panela ou xingar porque não é possível que só a gente esteja percebendo os crimes, a desfaçatez, a incompetência, o descaso, o projeto de destruição.

Tem dias que a gente cansa de ficar calada diante das injustiças, do negro que sofre racismo diário, da mulher que é violentada em todos os graus, dos idosos explorados pela família, dos índios massacrados, dos moradores de rua abandonados, dos aposentados roubados.

Tem dias que a gente cansa de ver os espertinhos sem fiscalização e responsabilização pelos atos errados que cometem. É o vendedor de pastel frito que direciona a tubulação da pia no riozinho da cidade; o vendedor de espetinho que impede a passagem na calçada pública e descarta o carvão na boca de lobo da rua até entupi-la e por aí vai.

Tem dias que a gente cansa de ver representantes dos poderes públicos sendo rígidos com quem paga impostos, mas completamente condescendentes com quem infringe as leis: dos ambulantes aos comerciantes que, por exemplo, vendem bebidas alcóolicas para menores.

A expressão é do filósofo sul-coreano Byung-Chul Han. Ele escreveu um ensaio com esse nome. A obra vem recebendo atenção especial dos intelectuais brasileiros, mas precisaria ser lida por todos.

Hang é um crítico feroz da sociedade hiperconsumista e egoísta, onde o indivíduo é seu próprio algoz porque se explora de uma forma avassaladora. Aquele tipo de pessoa que se sobrecarrega de afazeres e se sente culpada quando não está produzindo. Conhece alguém assim?

De acordo com o pensador, os seres humanos da Sociedade do Cansaço acreditam que não ter tempo para viver intensamente o presente e apreciar o momento é, sim, a realização de uma vida pessoal/profissional.

E um dos movimentos que mais aumenta esse “buraco negro” do esgotamento físico e mental é o excesso de positividade que a sociedade pós-moderna se autoimpôs.

Há, em todas as esferas da sociedade contemporânea, um discurso onde predominam as mensagens de ação produtiva e as ideias de que todas as metas são alcançáveis. Ou seja, você não será um vencedor apenas se não quiser.

O filósofo brasileiro Leandro Karnal costuma fazer um comentário impactante sobre esse pensamento: “O pico do Everest está cheio de corpos de pessoas que acreditaram que era só querer chegar lá que conseguiriam”. Comentário mórbido? Não! Realista.

Han exemplifica este positivismo exagerado – e negativo - com frases como “Yes, we can”, usada na campanha presidencial do ex-presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, em 2008. E o slogan da Nike, “Just do it”.

Embora as duas personagens – Obama e Nike – tenham sido vitoriosas nas áreas que escolheram atuar, claro que não bastou apenas o querer de cada uma. Houve muito trabalho e muito dinheiro envolvido até o sucesso.

Na ânsia de se diferenciar da maioria e, ao mesmo tempo, mostrar a melhor vida possível nas fotografias das redes sociais, as personagens da Sociedade do Cansaço repetem o mesmo padrão de comportamento e atingem o que Han chamou de “inferno do igual”.

Nesse tipo de sociedade sobram doentes com Síndrome de Burnout (distúrbio psíquico causado pela exaustão extrema), a compulsão alimentar e o vício em entretenimentos (jogos de computador ou maratonas de séries). Diz Han: “Quanto mais iguais são as pessoas, mais aumenta a produção; essa é a lógica atual; o capital precisa que todos sejamos iguais; o neoliberalismo não funcionaria se as pessoas fossem diferentes”.

Por isso, ele propõe retornar ao “animal original”, que não consome nem se comunica de forma desenfreada. “Não tenho soluções concretas, mas talvez o sistema acabe desmoronando por si mesmo. Em todo caso, vivemos uma época de conformismo radical: a universidade tem clientes e só cria trabalhadores, não forma espiritualmente. O mundo está no limite de sua capacidade; talvez assim chegue a um curto-circuito e recuperemos aquele animal original”. Talvez.

 Ayne Regina Gonçalves Salviano

(É jornalista e professora. Empresária no ramo da Educação em Araçatuba) 

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