jornaldejales@melfinet.com.br
17 3632-1330

Surpresas no Dia do Trabalho

Por Marcelo Jacomini Moreira da Silva
05 de maio de 2019
Marcelo Jacomini Moreira da Silva
06:23 a.m., Renato abriu os olhos. O despertador estava ajustado para 07:20 a.m. Mesmo feriado e tendo chegado das aulas por volta da meia noite anterior, Renato acordou antes do previsto. Era Dia do Trabalho, a missa estava marcada para as 08h30 a.m., organizada pelo pequeno grupo ao qual pertencia, da Pastoral da Cidadania.
Mas a missa não preocupava Renato, pois no horário da celebração, muito difícil seria alguém se contrapor aos argumentos expostos. O dilema seria depois. Quatro dias antes Renato assumira o compromisso de abrir o bate-papo sobre o Dia do Trabalho que aconteceria após a missa; e isso sim provocou o despertar aquém do despertador.
Afinal seria momento de debate aberto; nesses dias Renato buscou informações para solidificar os argumentos tão divulgados sobre a situação dos trabalhadores nos dias de hoje; dias repletos de verdades absolutas acreditadas ao menos por quem as expressa nas redes sociais, ao ponto de até mesmo o Bispo ser questionado nas eleições anteriores por defender políticas sociais.
As informações pesquisadas eram clássicas, reticentes desde os últimos 30 ou 40 anos, com pouca melhora em alguns períodos de governo, o trabalhador prestava serviço, em geral, por baixa remuneração, sob condições de saúde precárias, a mão de obra excedente anulava a paridade de negociações, as formações educacionais inadequadas para novos postos de trabalhos; isso Renato, e todo mundo, já sabia, mas o que inquietava Renato era como associar isso a vida cristã. 
Exemplos de igualdade e comunhão nos diversos textos bíblicos e evangelhos não faltavam, mas e a realidade hoje? Passaram mais de dois mil anos, o mundo se organizou em função da produção, a tal ponto que filmes do dito “vagabundo” Carlitos ainda poderiam ser refilmados em cenas cotidianas; de súbito instante veio uma ideia, os exemplos cristãos nunca evocavam a eliminação dos opressores, mas sim a tentativa de conscientização dos oprimidos que deveriam se organizar para buscar melhores condições, seja lá qual fosse a demanda.
As ideias estavam pinceladas no raciocínio de Renato, e era só esperar o momento de sua fala. Tomou um café, saiu de casa. Na chegada a cena já surpreendeu: as naves de igreja quase cheias, fotógrafos da imprensa local; isso para um evento organizado por um pequeno grupo, era um retorno excelente.
A celebração começou, sob refrãos que evocavam o trabalho como a proposta já predizia. Nas primeiras falas, dados foram apresentados referentes à quantidade de trabalhadores a procura de ocupação, seguida da leitura de trecho bíblico no qual, para a época, critérios de relação entre empregados e empregadores deveriam ser seguidos para uma condição digna, critérios um tanto quanto atuais.
Renato sentiu-se aliviado, a passagem bíblica corroborava suas ideias; porém, tal condição almejada no texto era muito distante da situação real e atual do país. Seguiu-se a homilia, preocupações sobre as condições de trabalho, saúde física e mental, dignidade.
O fechamento da celebração foi o momento de concatenação do sentimento de Renato; a demanda deveria ser feita pela classe trabalhadora, não pela individualidade, apenas a união poderia mobilizar e trazer resultados. Renato sentiu-se aliviado, seu roteiro para a abertura do debate já tinha sido verbalizado, poderia ser questionado no bate-papo como deve acontecer em todo debate, mas a sensação de pertencimento aliviou sua preocupação.  E o bate papo começou... mas te convido para o próximo.

Marcelo Jacomini Moreira da Silva 
(Engenheiro e membro da Pastoral da Cidadania de Jales)