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Só louco?

Editorial
10 de novembro de 2019
Por volta da metade do mês de junho de 2016, no chamado período  pré-eleitoral, o ex-prefeito Humberto Parini (PT), que governou a cidade de 2005 a 2012, foi entrevistado no  Jornal do Povo (Rádio Assunção) .  
Em certo momento da entrevista, um dos repórteres perguntou se ele tinha vontade de ser novamente candidato a prefeito.De bate-pronto, o ex-alcaide cravou uma resposta que ainda hoje, continua repercutindo e cada vez com maior intensidade.  
Parini surpreendeu entrevistadores e ouvintes ao responder na lata: “o político  que disser que quer  ser candidato a prefeito deve antes se submeter a um exame de sanidade mental”.
Foi fácil entender o motivo pelo qual ele explodiu.Parini que, antes de ser prefeito, tinha a vida feita como dentista e que ficou mais tranquila ainda depois que foi aprovado em concurso público de auditor fiscal da Secretaria Estadual de Fazenda, viu o mundo desabar sobre sua cabeça com a avalanche de processos dos quais foi alvo  no final de seu mandato e ainda hoje, passados sete anos. 
Estas reminiscências vêm a propósito do que aconteceu no final da semana passada quando, no dia 1º de novembro, a Assessoria de Comunicação da Polícia Federal de Jales divulgou nota tornando público o indiciamento de 17 pessoas, inclusive três ex-prefeitos, na terceira fase da Operação Farra no Tesouro, conjunto de malfeitos  praticados e confessados pela ex-tesoureira Érica Cristina Carpi de Oliveira ao longo de aproximadamente 10 anos. 
Embora a PF tivesse a cautela, em sua nota, de não divulgar nomes, não foi necessário ter bola de cristal para deduzir que os três ex-prefeitos eram o já mencionado Parini, sua sucessora Eunice Mistilides da Silva e, após a cassação dela, o substituto legal Pedro Manoel Callado Moraes. O atual prefeito, Flávio Prandi Franco, ainda segundo a PF, não foi indiciado porque, como está no exercício do mandato, tem foro privilegiado, que é o o Tribunal de Justiça. 
Como a própria ré, ao ser descoberta por conta de denúncia anônima,  confessou na Polícia e durante a audiência de instrução no fórum de Jales, que agiu sozinha, sem cúmplices, enganando meio mundo, inclusive colegas de trabalho e até os inúmeros auditores do Tribunal de Contas do Estado, que fiscalizam com olhos de linces os documentos de prefeituras, o indiciamento de detentores de mandatos  e secretários municipais, a muitos  pareceu estranho. Mas, isto será objeto de debates mais à frente quando o inquérito chegar ao Ministério Público.     
De qualquer forma —e só para ficar em um exemplo — dá para imaginar o que  sentiu um dos indiciados, Pedro Manoel Callado Moraes, que governou a cidade apenas um ano e 10 meses (fevereiro de 2015 a 31 de dezembro de 2016). 
Vale lembrar que, no dia de sua aposentadoria, este jornal publicou a homenagem que lhe foi prestada no salão do júri  do fórum. Um dos oradores lembrou que durante os 28 anos como juiz de direito, ele nunca recebeu uma representação de advogados (decisão de magistrado sempre desagrada uma das partes)   nem processo disciplinar do Tribunal. 
Pois bem,passou o tempo e  bastaram 22 meses à frente da Prefeitura de Jales para tirá-lo da confortável situação de juiz aposentado e professor universitário, além de cidadão atuante e  querido na comunidade, para ter seu nome em lista de indiciados de um caso que, quando estourou, deu até matéria no “Fantástico”.   
Por estas e outras razões, não há como negar que  Parini tinha razão lá atrás:   ser prefeito é coisa de louco...