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Saiba como Jales viveu e comemorou a Copa de 1958

por Roberto Gonçalves
10 de junho de 2018
A criançada da época curtiu a vitória da Seleção através do serviço de autofalante instalado na avenida principal de Jales
Como os pioneiros estão partindo, restam poucos jalesenses para contar a história da primeira Copa do Mundo vencida pelo Brasil, há 60 anos atrás.
Em 1958, dispúnhamos apenas de fotos precárias e apenas o Kido Foto e Foto Morita. O registro daquele monumental evento, que testemunhei e participei com 12 anos, ficou registrado, para sempre em nossa memória, mas podemos passar às novas gerações que Jales participou, ativamente, de vários eventos que ocorreram no transcorrer dos jogos, curtindo intensamente o surgimento do maior fenômeno da história do futebol mundial, nosso popular PELÉ.
Sim, Jales viveu, sessenta anos atrás, a glória que dividiu com todo Brasil, de sair pelas ruas buzinando carros e charretes, soltando todos rojões que eu existiam na cidade e tendo que buscar, logo após a vitória de 5 a 2 sobre a Suécia, todos rojões que existiam na cidade vizinha de Estrela d’0este, na época próspero comércio. 
Na verdade, apesar da precariedade total na comunicação, Jales viveu também as Copas de 1950, de triste lembrança no Maracanã, e a de 1954, na Suíça, quando fomos goleados pela Hungria, melhor seleção europeia de todos os tempos, com meia dúzia de craques padrão Pelé e Garrincha. Lembro bem do grupo que acompanhou o jogo no monstruoso rádio do Bar do Geraldo e no final, quando o pau quebrou, com a maior briga em campo aberto, voando chuteiras, sopapos e pontapés por mais de meia hora. Claro que o Brasil foi o culpado, porque não se conformou com a derrota. Não tivemos, como sempre, a humildade de reconhecer a superioridade técnica das estrelas húngaras.
Mostrei este texto para um amigo meu de São José dos Campos, grande jornalista esportivo e ele me corrigiu, dizendo que esqueci de falar da última Copa do Mundo antes da guerra (1938), desmentindo minha afirmação. de que Jales participou de todas as copas. Expliquei a meu ilustre e querido amigo que tem coisas de Jales que somente os jalesenses sabem. E o caso da copa de 38 se explica muito fácil: Jales não existia em 1938 !!! Morremos de rir...

COMO FOI
 Após uma rápida introdução sobre o futebol na jovem Jales, vamos homenagear nossa cidade pelo grande exemplo de euforia e cidadania que demonstrou na copa de 1958, exatamente 60 anos atrás.
O prefeito municipal, Euphly Jalles, eleito em 1957, um ano antes da copa, cuidou de colocar o poder público para ajudar os festejos, construindo um enorme palanque na confluência do Rua Oito coma Avenida Francisco Jalles, permitindo que autoridades usassem o sistema de som contratado com Zé Gatti, para uso da palavra, trazendo também duplas de violeiros mais conhecidos para animar o evento.
Na hora dos jogos, num som muito caprichado, era retransmitido o jogo, reunindo grande multidão nas imediações do palanque.
Prevenido, Euphly acabou com o estoque de rojão de Jales e de Estrela d’Oeste, na época grande centro comercial.
No inesquecível ano de 1958, Jales tinha duas poderosas equipes amadoras, respeitadas e até hoje lembradas em toda região.
Jogadores mais experientes defendiam as cores da Associação Esportiva Jalesense, que nos dias de jogo chegavam de taxi, já uniformizados, comandados por Zé Gatti, maior animador esportivo da história de Jales. O outro time que viveu conosco a vitoriosa Copa de 1958 era o jovem Independência, formador de craques inesquecíveis como Horácio Cardoso, João Herrera, Ordalino, Tuchinha, Nenê Paz Landin, etc.

TRISTEZAS E ALEGRIAS
No meio da euforia da Copa, que hoje lembramos com saudades, 60 anos depois de tão esperada conquista, tivemos a tragédia do incêndio da Casa do Rádio, do grande esportista Belmiro de Souza, cobrindo Jales de fumaça escura e todos nós de infinita tristeza.
O assunto nos bares das esquinas, na Agência de Revistas Mariza, ponto de encontro da elite jalesense, o assunto era a copa e a pergunta recorrente era sempre a mesma: será que vamos chegar à final e depois levantar o caneco ?
Depois que Pelé explodiu e Garrincha soltou todo seu talento, Jales vestiu a camisa da euforia e trocou a conversa do café, do boi e do três mir conto por  copa do mundo.
Nosso alto falante só falava da seleção, exaltando nossos  craques e convidando as pessoas para usarem o microfone e opinarem.
Drausio e Biriba, grandes animadores culturais da cidade, conseguiram levantar a população, correndo as ruas da cidade com um jeep velho e um novo alto falante da prefeitura.
Se alguém tem alguma dúvida sobre os 60 anos da Copa de 58, em Jales, consulte as pessoas com mais de 70 anos que tiveram a sorte e alegria de viverem um dos melhores momentos de nossa história.
Na festa de 1958, Jales não ficou devendo nada ao Brasil !!!

Roberto Gonçalves
(é sociólogo, historiador,  escritor, psicanalista e presidente do Instituto Brasileiro de Psicanálise Contemporânea)