Arquibancada

Retorno surreal

O número de mortes aumenta a cada dia, a curva cresce de forma assustadora, os leitos de UTIs estão lotados e o futebol brasileiro está de volta. O enredo parece inimaginável, para muitos seria algo impensável, mas essa é a realidade do Brasil, e a vitória de 3 a 0 do Flamengo diante do Bangu, na última quinta-feira (18), marcou o recomeço dos jogos.

A primeira partida do retorno aconteceu no Maracanã, que abriga em seu complexo um Hospital de Campanha a poucos metros do campo onde as duas equipes fizeram o primeiro confronto do Campeonato Carioca após a paralização. Na quinta-feira, data do jogo, foram registradas 274 mortes no Rio de Janeiro por Covid-19 e dois desses óbitos ocorreram no Hospital de Campanha do Maracanã, segundo dados da Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro.

O retorno do futebol no estado tem como protagonista o Flamengo, clube com alto poderio financeiro que se impôs diante da irresponsável federação local. A apresentação de um protocolo sanitário aparentemente eficiente pode ser um ponto positivo. Em contrapartida, o clube claramente se aproveitou do momento para sair na frente dos rivais no retorno aos treinamentos e começou a valorizar um campeonato que no início do ano pensava em escalar atletas da base e ser mero coadjuvante.

Outro ponto caótico do lamentável retorno é o fato de equipes como Botafogo e Fluminense não concordarem em entrar em campo neste momento e sequer terem voltado aos treinamentos. Segundo o presidente alvinegro, cinco atletas estão infectados, enquanto o Tricolor tem um jogador suspeito no seu elenco.

O cenário no futebol paulista é um pouco diferente, mas os erros também são visíveis. Após a irresponsável flexibilização no comércio no estado diante do assustador números de infectados e de óbitos, os clubes reivindicam junto ao governador João Doria (PSDB) a liberação para treinar, mas a volta das atividades foi permitida apenas a partir do dia 1 de julho.

O recomeço do futebol brasileiro em meio a um dos momentos mais caóticos da pandemia é um tapa na cara da sociedade, significa a falência moral e todos os atos apenas comprovam as péssimas escolhas do país na luta contra a Covid-19. O protocolo das equipes pode ser uma segurança, mas isso não conforta o desespero de pensar que enquanto um jogador comemora um gol no Maracanã, outro cidadão pode estar falecendo no Hospital de Campanha ao lado do estádio.

Eduardo Martins

 (jalesense, aluno do 4° ano de jornalismo da PUC-Campinas) 

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