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QUEREMOS UMA DITADURA OU UM HERÓI?

A democracia é o incentivo a contrapor todas essas condições impostas pelo fascismo.
12 de abril de 2019

Recentes publicações nas redes sociais defendem a comemoração da ditadura, embora, segundo pesquisa Datafolha, 57% sejam contrários.

Entre os defensores da ditadura, fatos como perseguições, torturas, censuras e corrupções, já amplamente documentadas, são ignorados para se afirmar que se podia andar tranquilamente à noite, mas essas comparações são errôneas, pois em 1960 a população urbana de Jales equivalia a menos de ¼ de hoje e os problemas sociais, também são diferentes.

Voltando ao eco ditatorial, será que queremos uma ditadura, ou queremos um herói, um salvador da pátria, à imagem de Marechal Deodoro, Getúlio Vargas, ou outro personagem histórico tão bom quanto polêmico, odiado por uns e amado por outros? Figuras ilustres,   que fizeram o “bem” à população, eliminando os “perigos” que nos rodeavam.

Observando a vida política, uma leitura fundamental para os nossos tempos é “O fascismo eterno”, fruto de uma conferência que ocorreu nos EUA em 1995, proferida por Umberto Eco. O autor busca entender como, em pleno século XXI, nossa democracia representativa pode dar poder a alguém com discurso exclusivamente autoritário.

Umberto Eco destaca pontos essenciais para caracterizar tal discurso, comparado ao fascismo italiano, que remete ao culto da tradição e rejeição do modernismo; culto de ação pela ação com a negação do pensamento crítico no qual o desacordo é traição; teme a diferença e, por isso mesmo é racista; apelo às classes médias frustradas; apelo ao nacionalismo e xenofobia; inveja e medo do "inimigo”, criando um princípio da guerra permanente; desprezo pelos fracos, pois o heroísmo e o culto à morte estão interligados ao posicionamento do machismo e armamento, que implicam desdém pelas mulheres, intolerância e condenação de hábitos sexuais não padronizados (da castidade ao homossexualismo), com transferência do sexo às armas.

A democracia é o incentivo a contrapor todas essas condições impostas pelo fascismo. Os regimes democráticos pressupõem a participação popular nos rumos do município, do estado e do país. Ao contrário do que muitos imaginam, a democracia deve ser palco de debates constantes, de contraposição de ideias e o culto à vontade de uma maioria, não o culto à opinião de uma pessoa, ou de um grupo de pessoas. O anseio pela ditadura revela a rejeição que a própria sociedade possui em pensar um projeto de nação para si mesma.

Dessa maneira, as comemorações para uma ditadura militar apenas são possíveis numa democracia. Em regimes autoritários não há liberdade de expressão, de opinião. Tal qual Umberto Eco define logo no título de seu livro, o fascismo é eterno e buscará inúmeras formas de conquistar mentes e corações. Portanto, o único método é seguir o conselho de Thomas Jefferson, quando diz que “o preço da liberdade é a eterna vigilância”.

Será que queremos uma ditadura novamente, ou estamos fechando os olhos à responsabilidade que a democracia nos impõe ao ter parte das decisões políticas do nosso país?

 

Marcelo Jacomini Moreira da Silva - Doutor em Engenharia Civil. Membro da Pastoral da Cidadania, Jales/SP.

Maria de Lourdes Pinheiro - Doutora em Educação. Membro da Pastoral da Cidadania, Jales/SP.

Nélio da Silva Barbosa - Mestre em Tecnologias, Comunicação e Educação.