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Quem te viu... quem te vê

Por MARCO ANTONIO POLETTO
23 de junho de 2019
Marco Antonio Poletto
Literalmente eu não tinha planos de escrever sobre ele, mas, eu não vou ficar aqui parado de pijama. O artigo era outro. Tinha planos para falar sobre o Glenn Greenwald, prêmio Pulitzer (USA) e Esso (BR) de jornalismo, que acabou com a farsa da Lava Jato. Mas Chico é Chico. A imprensa “adestrada”, também anda metralhando esse gênio, pela declaração de apoio ao #Lulalivre ou pela questão da biografia, enfim, “PIG” a parte, vamos lembrar que hoje é domingo, e que domingo! Se o jornalista Tarso de Castro (um dos mentores intelectuais do semanário O Pasquim, que revolucionou a imprensa brasileira) estivesse entre nós, com toda essa mediocridade musical que assola o país, ele diria: - “hoje, como todos os dias é dia de Chico! Sim, dia do gênio Francisco Buarque de Hollanda!!!  Hoje é domingo, dia de macarrão, de churrasco, da família, do futebol, do silêncio dos Deuses, do programa Brasil&Cia, do Improviso, do Jornal de Jales, mas, também é dia de Chico.   Hoje, domingo, no dia do Chico, o Brasil dorme em berço esplêndido, talvez Deus nos fale pelos sonhos, ou talvez Ele se esqueceu da gente. De onde vêm nossos poetas, para aonde vai o nosso povo? Esquecido em algum lugar do atlântico, o Brasil encara o mundo com desfaçatez.  Se para os franceses a literatura se casa com a filosofia, para nós a canção popular se enlaça, de corpo e alma, com a literatura. E lê-se a música. As crônicas de Noel Rosa, a poesia de Vinícius, os aforismos de Caetano, os ditos de Caymmi, o sertão de Vandré, os sabiás e a flora de Tom Jobim, o coração de Milton Nascimento, e os outros poetas e cronistas e literatos da nossa canção popular. 
O Chico não. Este é um demônio, tem a idade das pedras, como diria Vinícius, é o gênio da raça, como diria Jobim. Cronista, poeta, dramaturgo, novelista, romancista, lírico, épico, trágico, lúdico, sarcástico, historiador, político, feminino, infantil. Um arquiteto da palavra.  Chico Buarque de Holanda é, sobretudo brasileiro. Gosta de samba, futebol e do Rio de Janeiro. Meu caro amigo, me perdoe, por favor, mas sinto até inveja. Além de tudo, é um maravilhoso músico. É mestre em entrelaçar a prosódia da melodia com a das palavras. As notas pingam sobre as sílabas e vice-versa. 
Chico é diabólico, é filho das raízes do Brasil, é um esteta da língua portuguesa, essa esquecida língua dos anjos. De que lugar mesmo do atlântico? Talvez de algum lugar esplêndido e demoníaco. 
Ao falar de um operário desiludido, que comete o suicídio e ainda por cima morre na contramão atrapalhando o trânsito. Ao falar de uma prostituta que salva a cidade do enorme zepelim, mas não escapa das pedras e das bostas do preconceito. Ao falar da moça feia debruçada na janela, achando que a banda tocava pra ela. Ou então do amor partido, de um sangue que errou de veia e se perdeu; ou da mulher que espera o marido voltar bêbado do bar; da mãe que arruma o quarto do filho que já morreu; do guri que rouba uma bolsa já com tudo dentro pra encher de orgulho a sua mãe. O Chico cronista fala do dia-a-dia do nosso país, o Chico político contestou, como ninguém a ditadura, o Chico amante descreve o amor cotidiano, o Chico malandro abusa do jeitinho brasileiro, o Chico poeta lapida a nossa língua, o Chico historiador nos conta sobre Calabar e as mulheres de Atenas, o Chico sambista exalta o carnaval, o Chico humanista chora a gente humilde e os menores abandonados. Francisco Buarque de Holanda, nosso Chico é um demônio, tem a idade das pedras, e talvez seja a própria alma brasileira. Essa alma que não se deixa fustigar e, esquecida em algum lugar do atlântico, encara o mundo sempre com desfaçatez. Nesta quarta feira, dia 19 de junho, Chico completa 75 anos.
PS. Tem gente gozada nesse mundo. Certa feita, ao assistirmos juntos a um show de Chico Buarque, um amigo comentou assim, meio como se falasse com o próprio útero: “Se eu fosse mulher, cairia fácil-fácil nos braços do Chico”. Eu ri e perguntei se ele sucumbiria ao cantor por causa do par de olhos azuis, pelo seu charme singular e coisa e tal. “Não. Eu seria sua amante por causa da poesia. O Chico é gênio…”, emendou. 

Marco Antonio Poletto 
(é gestor no Poder Judiciário, Historiador, Articulista e Animador Cultural)