VESTIBULARES

Quanto custa balburdiar sonhos?

Em 2019, acompanhei os inúmeros insultos que vários setores da educação receberam de uma determinada parcela da sociedade. Confesso que, em muitas delas, o termo incredulidade era pequeno para definir o sentimento que pairava ao ler ou ouvir certas colocações. 
Fico imaginando qual seria a motivação para tamanho ódio e rancor para com um setor que tanto oferece e contribui para a formação das pessoas. Coloco-me a pensar o que leva alguém a apontar o dedo para incentivar ainda mais a desconstrução cientifica e acadêmica. 
Ouvi de um amigo que isso é próprio de pessoas invejosas e que seriam incapazes de alcançar um nível tal qual os ingressos e egressos de uma universidade. Reluto para evitar essa possibilidade, mas ao notar a falta de ao menos um projeto de educação para o país percebo que me darei por vencido.
Mas, o que me faz retomar o assunto que já esteve em pauta aqui é aumento do destrato para com o Ensino Superior no Brasil. Meus pais me ensinaram que fazer algo contra nós é doloroso, mas contra um filho ou filha é mexer com o que não deveria. Essa mesma situação vale para o professor e seus alunos e alunas. Acompanhamos todos os dias o que é a luta pela vaga numa universidade pública ou renomada, bem como as angustias e dificuldades. Afinal, estamos lidando com sonhos.
Assim, nos últimos anos, tivemos que ser firmes e fortes ao aguentar pancadas fortes e descabidas como: “professor é doutrinador”; “em casa pode-se ensinar melhor do que na escola”; “a terra é plana”; “você não é capaz de refutar minha opinião”; “nazismo é de esquerda”; “coloca a polícia dentro da escola”; “o vídeo do YouTube é mais embasado do que o livro”… e como não poderia faltar… “a universidade é lugar de balburdia”.
Porém, logo no início de 2020, utilizando uma expressão palaciana da moda, o tiro saiu pela culatra. Após o inócuo ministro da Educação afirmar que estávamos presenciando o melhor Enem de todos os tempos, veio a avalanche de presepadas e erros. Atrasos na divulgação, vazamento de dados, notas erradas com direito a revisão solicitada via Twitter… Enfim, um verdadeiro show de horrores.
Do outro lado da história está o jovem que estudou horas, dias, noites e meses, tendo que lidar com as incertezas, dificuldades, ansiedade, nervosismo e insegurança. Após essa longa jornada, ainda teve que se deparar com um verdadeiro caos na organização da prova mais importante de suas vidas. Tudo isso em detrimento do seu sonho.
A balburdia não é do jovem na universidade. O jovem estuda, dedica-se, entrega-se, devolve o que melhor produz para a sociedade. A balburdia vem de um desastre de comando que afronta os sonhos de quem quer alcança-los.
Balburdiar sonhos é zombar do futuro do país.

Eduardo Britto 
(Professor de Geografia do Colégio e Curso Objetivo de São Paulo, graduado pela UNESP, especialista em Gestão Ambiental pela UFSCAR e Mestre em Ensino de Ciências pela UFMS)
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