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PRIVATIZAÇÃO DA VALE

Bispo emérito revela bastidores da polêmica com “o bobo da corte”
10 de fevereiro de 2019
O bispo emérito de Jales enfrentou o mais poderoso ministro do governo Fernando Henrique
A tragédia de Brumadinho-MG decorrente do rompimento de barragem em área explorada pela mineradora Vale continua viva na memória de todos os brasileiros. Até o momento em que fechávamos esta edição, as autoridades policiais já tinham contabilizado 154 mortes.
Na edição de domingo passado, dia 3 de fevereiro, o Jornal de Jales publicou editorial lembrando o embate entre Dom Demétrio Valentini, bispo emérito de Jales, então coordenador das Pastorais Sociais da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, e Sérgio Motta, ministro das Comunicações do governo Fernando Henrique Cardoso. 
Por conta da publicação, Dom Demétrio enviou texto à redação na qual acrescenta outros detalhes sobre o rumoroso caso que teve como pano de fundo o processo de privatização da Vale, defendida pelo ministro e combatida pelos setores progressistas da CNBB.
Eis a íntegra do depoimento do bispo emérito:

“Estimado Deonel,
Cumprimento-o pela iniciativa de trazer à memória o contexto político dos tempos em que a Companhia Vale do Rio Doce foi privatizada.
Para situar melhor a posição da CNBB, contrária à privatização da Vale, permito-me acrescentar alguns detalhes, que acho importantes.
As questões políticas que na época estavam a ordem do dia, além do debate sobre as privatizações, giravam em torno da mudança da constituição para permitir a reeleição dos mandatos dos executivos, ponto que interessava sobretudo ao Presidente Fernando Henrique Cardoso, que a todo custo queria dispor de um novo mandato, o que só seria possível com a aprovação do estatuto da reeleição.
Um outro componente, bastante folclórico, era o retorno do Brasil à monarquia, assunto que seria levado a plebiscito.
Os assuntos com peso político maior era as privatizações, e reeleição do Presidente FHC.  
Foi neste contexto que eclodiram as desastradas afirmações do Ministro Sérgio Motta, acusando Dom Luciano de ser contra a privatização da Vale porque ele tinha interesses financeiros na questão.
Era preciso dar uma resposta. Dom Luciano, sempre cordato, preferia calar, e deixar que as pastorais sociais tomassem sua a defesa. .
Fui incumbido de dar a entrevista. Era preciso atingir o Ministro Sérgio Motta, que tinha dado as declarações, mas atingir também o FHC, que era já acusado, por chacota, de querer não só um novo mandato, mas se tornar o herdeiro da futura monarquia.
Ainda lembro bem os termos da resposta:
“Como a monarquia ainda não foi oficialmente restaurada, a gente não sabe se o ministro Sérgio Motta só está treinando, ou se já assumiu a função de bobo da corte!”.
A notícia virou manchete em todos os jornais.
Mas infelizmente, a batalha contra as privatizações foi perdida, e  o Brasil ainda não fez as contas, tanto da   desnacionalização do país pela entrega de nossas riquezas minerais à ganância do lucro empresarial, como do prejuízo do processo político, com o estatuto da reeleição, que perverte as eleições, tornando-as  instrumento de manutenção do poder.
Estas grandes questões deveriam ser levadas a debate nacional.

Dom Demétrio Valentini”