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Privatização da água: água para os que podem pagar

Por Marcelo Jacomini Moreira da Silva e Léo Huber
25 de março de 2018
Marcelo Jacomini Moreira da Silva e Léo Huber
Entre os dias 18 a 23 de março, ocorre em Brasília o 8º Fórum Mundial da Água. Um dos temas que deverá ser motivo de muita polêmica é a privatização da água. A data do Fórum coincide com o Dia Mundial da Agua, celebrado no dia 22 de março.  
Segundo a Organização das Nações Unidas – ONU, a água é um direito humano fundamental para a vida e que deve ser acessível a todos. Esse, porém, é um direito que está ameaçado, pois, grandes empresas transnacionais como Nestlé, Danone, Coca-Cola e Pepsico, que juntas controlam 50% do comércio de água no mundo, estão muito interessadas na privatização da água no Brasil, particularmente, a do Aquífero Guarani, o maior reservatório de água potável do mundo, situado em sua maior extensão, no subsolo do Brasil. Como brasileiros ficamos felizes ao saber de tal descoberta do Aquífero Guarani e o patrimônio que ele representa para nós. Contudo, esta água poderá ser privatizada para as grandes empresas transnacionais do setor de bebidas e, nós brasileiros, se quisermos consumir, teremos que pagar pela água. E pagar caro. Basta lembrar que, atualmente, não é difícil encontrar um litro de água engarrafada a um preço superior ao de um litro de gasolina.
A privatização de bens públicos é apresentada como se fosse a solução para todos os problemas humanos. E a água estaria também nesse contexto. Mas transformada em mercadoria de alto valor, será fonte de geração de riqueza e lucro para poucos, enquanto para muitos, a água “torneiral” poderá simplesmente desaparecer, por não ter dinheiro para pagar por ela. É difícil isso ocorrer? Nem tanto! Hoje, com grande parcela da população desempregada, se não conseguir pagar a conta de água, esta será cortada. 
Ainda no campo das privatizações, empresas públicas brasileiras, da área de abastecimento de água e saneamento básico estão para serem vendidas. Estados, em crise financeira, para poder renegociar suas dívidas com a União, são forçados a privatizar suas empresas públicas do setor, mesmo estando em boa condição financeira, tal como aconteceu na década de 70 quando a grande maioria dos SAAEs municipais foram cedidas aos poderes estaduais.
A opção pela privatização das empresas de água e saneamento, atualmente em curso no Brasil, está na contramão do que ocorre mundo afora. Cidades que privatizaram esses serviços em décadas passadas, hoje estão retomando as empresas para o setor público, pois suas privatizações se revelaram um desastre para o interesse da população em geral.  Em muitos países esta providência já está sendo tomada como França, Alemanha e Inglaterra, atingindo cidades como Berlim e Paris. 
Somos convocados a economizar água. Certamente esta convocação faz todo o sentido e devemos contribuir usando-a com responsabilidade. Precisamos, porém, estar atentos para as outras dimensões do emprego da água. Tudo, ou quase tudo utiliza água, não apenas sucos e bebidas engarrafadas, até mesmo uma cadeira feita de ferro precisa de água para o processo de mineração, como demonstrou a Samarco com o acidente em Mariana - MG. Isso é a chamada Pegada Hídrica deixada pela indústria. Somente 10% da água é consumida por nós. Outros 20% são consumidos pela indústria e 70% pela agricultura. Água essa, que é captada nos rios e lagoas gratuitamente, em quase todo o país e se transforma em produtos com valor agregado a ser pago por nós. Fechar a torneira de casa é importante, porém insuficiente para a preservação da água, este bem finito e indispensável para a vida. Transformá-la em mercadoria cara controlada por grandes empresas transnacionais preocupadas com seu lucro, certamente é uma ameaça muito maior.

Marcelo Jacomini Moreira da Silva
(Professor, Doutor em Saneamento e Ambiente.

Léo Huber
(Professor, Mestre em História Social.
Membros da Pastoral da Cidadania – Jales/SP).