Perspectivas

Por que tão cedo?

De cima do tablado nas salas de aula das turmas do ensino médio das escolas particulares onde trabalho, eu olho para os rostinhos deles – adolescentes entre 15 e 18 anos - e penso: por que tão cedo?
Hoje, escolher uma profissão “para a vida toda” que concilie habilidades, boa remuneração e qualidade de vida “para sempre” é, certamente, uma das tarefas mais difíceis dos jovens brasileiros que têm expectativa para cursar o ensino superior. 
O modelo de formação profissional que vivenciamos no Brasil está ruindo. Acredito que em 20 anos nem reconheçamos mais esta estrutura que seleciona candidatos com capacidade cognitiva, mas nem sempre com maturidade.
É irracional exigir de jovens a escolha da profissão quando pessoas com 30, 40 e 50 anos ainda estão revendo, diariamente, as suas opções e mudando de profissão. Você mesmo deve conhecer quem está na segunda graduação ou abriu um negócio diferente da sua área original.
Ensinando adolescentes há quase 30 anos, percebo que a angústia deles tem aumentado exponencialmente. Por ansiedade para chegar logo na faculdade, chegam a frequentar duas escolas e estudar mais de 10 horas por dia. Sem contar a cobrança que fazem sobre si mesmos pela aprovação nos vestibulares cada vez mais cedo. 
Preciso alertar que essa angústia e pressão se transformam em desilusão, que se transforma em depressão.
Meu apelo aos pais, tutores e aos jovens é que atualizem as suas expectativas diante desse mundo de novas oportunidades escolares e profissionais. A vida não se resume em vestibulares. Assim, não há nada de errado em fazer um intercâmbio ao final do ensino médio, tirar um ano sabático indo para o mercado de trabalho antes de voltar a cursar o ensino superior, ou mesmo conquistar a vaga na faculdade, mas não se contentar em fazer só isso.
Os estudantes da Engenharia Mecânica da USP em São Carlos costumam dizer que o curso pode ser “os piores cinco anos” ou “os melhores sete anos das vidas” deles. É preciso entender isso. Um aluno, em uma boa universidade, precisa aproveitar todas as oportunidades que ela oferece e, desta forma, além das aulas, experimentar a Empresa Junior, os projetos para a comunidade, a iniciação científica, ainda que precise atrasar sua saída.
A carreira profissional agora é algo fluído. Vai se moldando ao longo da vida. 

Ayne Regina Gonçalves Salviano
(é jornalista e professora. Mestre em Comunicação e Semiótica com MBA Internacional em Gestão Executiva. É co-leader da Damásio Educacional Araçatuba)
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