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Poema da Inauguração

Por Roberto Gonçalves
06 de outubro de 2019
Roberto Gonçalves
Hoje a vida faz festa na inauguração de um novo espaço para cuidar das emoções. É apenas mais uma inauguração de alguma coisa, em algum lugar, na crença que a vida tem jeito.
O que realmente importa é você inaugurar coisas novas em sua cabeça, todos os dias, mesmo que a tarde escureça antes da hora.
Por quê não inaugurar a solenidade perpétua de seu encontro consigo mesmo, como a sintonia da sombra com a criatura?
Quem sabe você inaugura um tempo de rompimento com a mesmice, os horários e as convenções que estrangulam sua agenda e apagam as luzes de sua vontade. Talvez fosse melhor inaugurar um templo para a imaginação, convidando apenas os amigos sábios, cultivadores do pensamento que produz qualidade de vida no olhar e no abraço.
Com certeza, sem punhos de renda, longe da mesa nobre e das toalhas imperiais, é possível buscar ideias nos livros e nas artes, inaugurando o universo da alma e o sentimento em voz alta.
Não é vergonha inaugurar o espírito crítico, expulsando a ideia de encontrar no silicone e na malhação a última e desesperada esperança de felicidade.
Ainda é tempo de inaugurar uma praça, lutar pelo coreto, valorizar a conversa na esquina, descobrir a arte do encontro, vacinando seu coração contra o vírus da solidão.
Jamais inaugure o desânimo, porque a vida sempre mostra a porta de saída, mesmo que você não faça a menor ideia de qual foi a porta de entrada.
Decida pela inauguração de um segundo tempo no jogo de sua vida, mas não se esqueça de anotar e corrigir os instantes iniciais da partida. Somente as dores do antes mostram o sorriso do depois.
Inaugure e conjugue apenas o tempo presente. O passado já foi e o futuro não chegou, sinalizando que a vida é aqui e agora.
Faça um brinde para a vida e inaugure o coquetel de solidariedade. Quanto mais estender sua mão, mais afeto despertará nas pessoas, resultando na festa definitiva de sua vida.
Sempre é tempo de inaugurar o hábito de olhar para frente, sentir o vento que assovia em sua janela, prestar atenção no topo das montanhas, suspirar com a dança das nuvens e o balanço das árvores.
Decrete o fim da sofisticação e inaugure coisas simples, festejando a humildade de continuar na vida, apesar dos espinhos que desfilam no chão e das pedras que bloqueiam o caminho da vitória.
Sinta o delírio de ouvir, inaugurando a excelência de falar menos e a sabedoria de dar a palavra aos que necessitam encontrar uma resposta.
Você pode começar uma nova e saborosa vida, como quem inaugura um castelo de doces, lembrando a fantasia da criança que precisa permanecer viva em sua imaginação.
Então fica combinado que está pronto para inaugurar tudo outra vez. Inaugure imediatamente você mesmo!
Depois nos conte como foi a festa de sua nova inauguração. Mesmo que tenha acontecido em silêncio.

Roberto Gonçalves
(é Psicanalista, presidente do Instituto Brasileiro de Psicanálise Contemporânea, sociólogo, historiador, cientista político e escritor)