Artigo

Piratas pós-modernos

“Seja a mudança que você quer ver no mundo”. A frase atribuída ao líder pacifista Mahatma Gandhi, que libertou a Índia do domínio inglês, me voltou à mente esses dias quando a Polícia Civil do Rio de Janeiro prendeu uma quadrilha que pirateava cursos e vendia as aulas a preços mais baratos na internet.

Mãe e dois filhos, entre eles um policial militar, arrecadaram, só entre os meses de dezembro de 2019 e janeiro de 2020, aproximadamente 2 milhões de reais. E as empresas, donas dos cursinhos oficiais, calculam que perderam aproximadamente 70 milhões de reais com o conteúdo comercializado pelos bandidos.

A prática é bem conhecida. Um hacker invade o sistema dos cursinhos, grava as aulas e o conteúdo é oferecido em “grupos de rateio” ou até por meio de propaganda pelas redes sociais. Infelizmente, milhares de pessoas dão sequência ao golpe mesmo tendo consciência do crime de receptação.

De acordo com o delegado que conduz o caso, Luiz Henrique Marques, a polícia tem condições de rastrear os computadores que baixaram as aulas pirateadas. Quem comprou o produto pirata será indiciado por receptação.

O delegado foi enfático ao afirmar que se entre os compradores houver algum aprovado em concursos públicos, o resultado pode ser anulado e a pessoa poderá perder o cargo. E ainda confirmou que se no percurso das investigações alguém do grupo for aprovado, pode não ser chamado para assumir o cargo por “falta de idoneidade moral”.

A esta altura deste texto você deve estar se lembrando das pessoas que conhece e já compraram cursos piratas. Também deve estar pensando em quantas vezes já viu nos grupos de Whats o compartilhamento de links de jornais, revistas e livros.

Com certeza você conhece pessoas que fecham contratos com empresas que fazem “gatos” de operadoras de TV. Ou ainda conhece pessoas que se apoderam das ideias dos outros e as divulgam sem aspas nem citações, como se fossem suas, aos moldes daquele que seria ministro, mas não foi, Carlos Alberto Decotelli.

Então retorno ao início deste texto e a Gandhi. Os brasileiros, dizem, querem um país melhor. Afirmam que não aceitarão mais a corrupção, os crimes e a roubalheira. Exigem que os políticos e ministros do Supremo sejam ilibados. Mas acham que podem comprar cursos pirateados, não veem problemas em compartilhar obras intelectuais sem pagar por elas e não acreditam que estão ferindo os direitos autorais quando copiam, descaradamente, o trabalho de outros. Um aviso: Isso se chama incoerência.

Ayne Regina Gonçalves Salviano

(É jornalista, professora de Redação e empresária no ramo da educação em Araçatuba)

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