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Pedagogia do Oprimido e a besta

Por MARCO ANTONIO POLETTO
19 de maio de 2019
Marco Antonio Poletto
Jair Messias Bolsonaro quer “expurgar” a obra de Paulo Freire do sistema educacional brasileiro, por atribuir-lhe a causa de todas as deficiências da nossa educação. Como professor, sinto-me no dever de começar com uma constatação: nem Bolsonaro, nem seus filhos e nem seu ministro da Educação, o homem da Kafta, digo, do Kafka leram a obra de Paulo Freire. Criticar algo sem sequer conhecer: isso sim é ideologia! E Bolsonaro tenta enganar a sociedade, afirmando querer “um país livre das amarras ideológicas”.
Se eventualmente leram a obra de Paulo Freire, não compreenderam nada. Se o fizessem, “livres das amarras ideológicas”, poderiam formar um juízo mais isento.
Vejamos, em artigo de Maria Izabel Noronha, Paulo Freire:
1. Há mais de 72.000 citações de Pedagogia do Oprimido, clássico que completou 50 anos, registradas pelo Google Scholar, ferramenta de pesquisa para literatura acadêmica na Língua Inglesa. 
2. Pedagogia do Oprimido é uma das obras mais citada do mundo, segundo a ferramenta, e Freire é o único autor brasileiro entre os 100 mais citados.
3. O livro Pedagogia do Oprimido também é a 2ª obra mais citada no mundo na área de educação em artigos em inglês.
O método Paulo Freire é Patrimônio Imaterial da nossa educação e cultura. Querer atribuir à obra e influência de Paulo Freire uma suposta “doutrinação” dos estudantes é ridículo e revela, ao mesmo tempo, ignorância e má-fé.
A concepção educacional de Paulo Freire rejeita a doutrinação, porque parte da interação entre professor e estudantes (de qualquer idade, em qualquer nível) como detentores de saberes e experiências que são trocadas no processo educativo. Logo, não confere ao educador o papel de “doutrinador”, nem ao educando a condição de uma consciência a ser manipulada.
Rejeitar o método freiriano, que reconhece no educando também o papel de protagonista, isso sim, é favorecer metodologias educacionais doutrinárias, impostas de cima para baixo.
Qualquer ser pensante sabe que os problemas da Educação brasileira são outros:
1. Faltam escolas e professores. Os profissionais da Educação são extremamente mal remunerados.
2. As escolas públicas que existem são precárias e incompatíveis com as demandas educacionais do mundo contemporâneo. Muitas parecem presídios.
3. Em pleno século 21, nem todas as unidades de ensino têm internet banda larga.
4. Não há políticas públicas de prevenção à violência nas escolas.
5. Faltam bibliotecas, laboratórios, áreas adequadas e convidativas para esportes, cultura e convivência. 
6. Políticos alinhados ao governo Bolsonaro usam forças policiais para agredir professores, estudantes e movimentos que reivindicam uma escola melhor.
Enfim, as deficiências reais da educação brasileira dariam uma lista gigantesca.
Maria Izabel Noronha diz de forma categórica: infelizmente não há excesso de Paulo Freire na educação brasileira!
Ao contrário, se seus métodos e sua obra tivessem sido aplicados na íntegra ao longo do tempo, certamente a formação de nossos professores seria muito melhor e nossa educação estaria em um patamar tão superior que, provavelmente, a onda obscurantista que estamos vivendo não estaria acontecendo.
Nossa resistência ativa, nas escolas e fora delas, impedirá esse novo exílio de Paulo Freire: “Se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda.” “Ninguém nasce feito, é experimentando-nos no mundo que nós nos fazemos.” “Ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo.” “A leitura do mundo precede a leitura da palavra”.
Feliz dia das mães.

Marco Antonio Poletto 
(é gestor no Poder Judiciário, Historiador, Articulista e Animador Cultural)