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Os discursos de ódio e sua consequência

Perspectivas por Ayne regina Gonçalves Salviano
18 de agosto de 2019
Ayne regina Gonçalves Salviano
Nos “Sermões” do padre Antônio Vieira há uma passagem onde ele escreve sobre o amor. De acordo com o autor, há três tipos desse sentimento: 1. O amor “causa”, aquele que a pessoa ama porque a amam, 2. O amor “fruto”, aquele que o indivíduo ama para que o amem, e o 3. O amor “fino”, aquele que se ama simplesmente porque se ama e se ama unicamente para amar. 
Quem ama porque o amam o faz por obrigação, é agradecido. Quem ama para que o amem é interesseiro, faz do sentimento uma negociação. Mas quem tem o amor “fino” é especial. Um exemplo desse sentimento foi o relacionamento entre Jesus Cristo com Judas. O filho de Deus sabia que seria traído pelo apóstolo, mas ainda assim o amou como todos os demais.
Perguntei em sala de aula aos meus alunos adolescentes se eles acreditavam em amor “fino”. Foram unânimes em apontar o amor de pais por filhos. Insisti: “e nas relações de amizade e amorosas, não acreditam no amor ‘fino’?”. Titubearam até que uma aluna respondeu: “não, professora, só no ódio ‘fino’”. Traçando um paralelo, ela teorizou: aquele que se espalha simplesmente por espalhar e se faz unicamente por maldade. Tão nova e tão consciente. 
Analisando as redes sociais é muito fácil identificar os discursos de ódio como uma metralhadora descontrolada disparando contra todos. Entre as vítimas mais recentes está a figura de um outro padre, Fábio de Mello. Ele comentou, no Twitter, ser contra a ‘saidinha’ – no Dia dos Pais - de Alexandre Nardoni, condenado pelo assassinato da própria filha.  Foi violentamente massacrado por pessoas que o acusaram, inclusive, de não saber perdoar, algo imperdoável por ser ele um representante de Deus na Terra.
O semioticista Umberto Eco tinha avisado. As redes sociais deram voz aos imbecis que, recalcados com seus próprios problemas, usam a internet para expor sua podridão moral. A consequência? Um ódio ‘fino’ que se espalha e precisamos urgentemente interrompê-lo.

Ayne regina Gonçalves Salviano
(é jornalista e professora. Gestora do Damásio Educacional Araçatuba)