quinta 22 outubro 2020
Perspectivas

Onde mora a esperança?

Caos. Na mitologia grega, o mergulho no abismo escuro só cessou após o encontro com Gaia, a mãe-terra. Foi a partir desse momento que nasceram as esperanças. Em tempos tão obscuros como os atuais, precisamos reavivar esse sentimento para acalmar tantas mentes confusas e corações desamparados. Mas onde mora a esperança?

As crianças estão sofrendo. Uma pesquisa realizada na China com 320 delas revelou que estão com dependência excessiva dos pais (36% dos avaliados), problemas com a desatenção (32%), muita preocupação (29%), insônia e pesadelos (21%), falta de apetite (18%), desconforto e agitação (13%), além dos mais variados problemas psicológicos.

Os jovens estão sofrendo. A perda da rotina, o fechamento das escolas, o distanciamento dos amigos, a falta dos esportes e das festas mais o adiamento de provas e vestibulares são alguns dos fatores que estão deixando este grupo ansioso, inseguro e triste. Estão tão desmotivados que mal conseguem reagir aos apelos para prosseguirem e não se entregarem. Estão emocionalmente exaustos.

Os adultos estão sofrendo. No mundo, milhões perderam seus empregos. Milhares continuam fechando seus negócios sem perspectivas de retomada da economia. Quem está trabalhando de casa ganhou mais horas de atividade, mais habilidades para desenvolver (especialmente as tecnológicas) e está acumulando os serviços domésticos e escolares, auxiliando os filhos em aulas remotas. E muitos, muitos mesmo, estão tendo de aceitar a redução do salário impostas por condições justas, outras nem tanto, com caráter mais exploratório ao velho estilo de Marx, com opressores e oprimidos.

Os idosos estão sofrendo. Sentindo-se abandonados, vendo o tempo, tão precioso, passar rápido demais roubando-lhes os abraços dos filhos e netos, as visitas dos amigos, as simples ações cotidianas como a ida na igreja ou no mercadinho da esquina, mas que serviam para tomar um sol, esticar as pernas, sorrir para a vizinhança.

Como dizer a todos que, apesar de tudo isso, é preciso ressuscitar a esperança? Apelarei para a literatura de Mario Quintana, chamado de “o poeta da esperança”. Era ele que costumava inverter o ditado popular “Enquanto há vida, há esperança”. Para o escritor gaúcho, a ideia é inversa: “enquanto há esperança há vida”.

E para que ninguém me entenda mal e confunda a tal esperança apenas com o otimismo, quero citar o escritor e psicanalista Rubem Alves. Ele ensinou: “Esperança é o oposto de otimismo. Otimismo é quando, sendo primavera do lado de fora, nasce a primavera do lado de dentro. Esperança é quando, sendo seca absoluta do lado de fora, continuam as fontes a borbulhar dentro do coração”.

Ainda se pudesse, colocaria para tocar em todas as rádios a música “Mais uma vez”, do Legião Urbana, só para todos lembrarem: “Mas é claro que o sol vai voltar amanhã, mais uma vez, eu sei. Escuridão já vi pior, de endoidecer gente sã, espera que o sol já vem”.

Que tenhamos todos a inteligência emocional necessária para entender que “quem acredita sempre alcança”. P.S. Onde mora a esperança? Em nós mesmos.

 Ayne Regina Gonçalves Salviano

(É jornalista, professora de Redação e empresária no ramo da educação em Araçatuba) 

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