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O relato da jalesense que trabalha como voluntária em Brumadinho

Por Thaís Larissa Castanheira
03 de fevereiro de 2019
O heroísmo dos bombeiros sensibilizou Thaís, na foto com o cãozinho que ajudou a salvar
No último dia 30 de janeiro, estávamos com uma base de triagem de atendimento veterinário no Parque da Cachoeira, região rural de Brumadinho, atingida pela lama. Lá os animais são sobreviventes!!
Na nossa equipe havia eu, o Eduardo Garrido e a Bombeira Civil Voluntária, Ana.  Fomos recepcionados por uma veterinária local, Dra. Érica, que nos ajudou a montar a nossa base. 
Ok, chegamos e quem chegou junto? Um carinha todo especial, sobrevivente da lama. Toquinho chegou exausto, com dificuldade para andar, mas viu a nossa equipe e reuniu suas forças para chegar até nós. Quando demos por nós, ele estava ali deitado “esperando” atendimento. 
Nós o examinamos e quase nem tivemos tempo de dar os primeiros socorros e fomos surpreendidos por uma tempestade. 
Raios, ventos fortes, uma chuva que não enxergávamos nada!!

CAMPO ABERTO
A hora que vimos as cadeiras e as mesas sendo arrastadas pelo vento, a Bombeira já deu o alerta. Coloquei o Toquinho na caixa de transporte e ao invés de usarmos a capa de chuva para nós a usamos para proteger os medicamentos e materiais de primeiros socorros. 
A hora que vimos nossa tenda foi arrancada e voou pelos ares. Estruturas voando aleatoriamente.  Estávamos em campo aberto. A Bombeira nos orientou a abaixarmos por conta dos raios. Uma gritaria, pessoas correndo aleatoriamente. 
Fomos para a segunda tenda, que era maior. Só vi o teto desabar e voar e partes das estruturas de metal. Correria. 
Eu e a Bombeira corremos para o carro. Estava fechado. Não encontrei o Eduardo. 
Eu agarrada à caixa de transportes tendo que correr e me abaixar e correr de novo! 
Vimos uma van de reportagem. Acredita que não nos deixaram entrar? A sorte que eu não vi quem era  ... Neste momento vimos a falta de empatia. Apenas as pessoas da van e os importantes que estavam lá é que puderam entrar. Ok, não havia tempo para bater boca.
Nos olhamos e falamos que só restava a casa. Tínhamos que correr até lá, desviando de tudo que voava aleatoriamente. 
Corremos e eu com o Toquinho. Não o larguei um minuto! “ninguém solta a mão de ninguém”, pensei. 

CENÁRIO DE GUERRA
Ao chegar na casa de apoio... Que cena... Mães com crianças no colo, idosos, deficientes, todos em oração... Só restava isso. O teto voava. 
Eu vi toda a doação sendo molhada... roupas, mantimentos... Ver a comida indo embora me doeu...
O Eduardo conseguiu pegar o carro e saímos seguindo a veterinária local que falou que nos ia abrigar na casa dela. 
Saí com o coração na mão, ao ver uma mãe agarrada a um bebê. Me senti impotente. 
Havia alguém de uniforme que não identifiquei se era da polícia civil. Ele ficou com a população... Eu consegui ir... Triste.... Impotente.
No caminho muitas árvores caídas na estrada de terra. Chegando na casa não pudemos entrar com o carro. Árvore caiu no quintal da casa. Não podíamos sair do carro, raios! 
15 minutos de chuva... Um caos! 
Quando conseguimos entrar na casa... estávamos exaustos, encharcados. Pensa que fomos tomar banho quente? 
Ainda tinha o Toquinho. Demos uma volta enorme, tiramos árvores do caminho para poder passar com o carro e chegar a Brumadinho na clínica dela para poder atender o cão que estava com dor, molhado e assustado. 
No final ele está bem e identificamos o dono que estava como voluntário no mesmo dia. Ele seguiu o dono e nos achou!!
Se não tivéssemos resgatado, ele teria morrido pisoteado na confusão. 
Estamos exaustos, gripados, mas somos MedVet.
“Ninguém solta a mão de ninguém”, lembram?
A maior experiência de humanidade que eu tive na minha vida. Um cenário e clima de guerra. 
Aqui fazemos todos os trabalhos. Não tem doutor. Tem seres humanos.

#SomosMedVet
#SomosIFNMG
#SomosTodosBrumadinho

Thaís Larissa Castanheira 
(Médica veterinária, docente do Instituto Federal Norte de Minas Gerais – Campus Salinas)