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O rei está nu

Por Ayne Regina Gonçalves Salviano
04 de agosto de 2019
Ayne Salviano
Hans Christian Andersen foi um escritor de histórias infantis. É dele “A Roupa Nova do Rei”, obra que conta a história de um bandido que, fugindo de outro reino, decide se esconder e fingir ser um alfaiate em novas terras. 
Muito malandro, ele conquista a simpatia de todos e é levado ao Rei, a quem convence que consegue tecer uma roupa que só os inteligentes conseguirão ver. Vaidoso, o Rei encomenda a peça e paga, adiantado, baús de riquezas. 
No dia marcado para o Rei exibir a roupa que só os inteligentes poderão vislumbrar, o monarca só recebe elogios dos súditos pelas lindas vestes. Até que uma criança, inocente e sincera, grita: “O Rei está nu”. E todos confessam, então, que não enxergavam mesmo a roupa nova do Rei. 
Há versões que contam que o bandido foi punido. Em outras, o Rei insiste em ostentar o que não tem só para manter a pose. É a arte imitando a vida.
Em algumas famílias há pessoas que se comportam como o Rei. Preferem ser enganadas pelas mentiras que encarar a verdade. Até perguntam o que os familiares acham sobre determinados assuntos, mas ficam completamente ofendidas quando as respostas não lhes favorece.
Em muitas instituições há pessoas que imitam o Rei. São tão incapazes que preferem se cercar de “puxa-sacos” que só aplaudem as besteiras que fazem. Afastam e são capazes de punir aqueles que discordam de algumas decisões absurdas, como acreditar que possam existir roupas mágicas que os tornem melhores.
Em muitos governos há pessoas que são reizinhos. Gritam, ameaçam, teatralizam falas que o povo, acostumado ao pão e circo, gosta de ver, mas no fundo são bobos da corte manipulados por um sistema corrupto, recheado de pessoas que ficam em volta do Rei apenas para usufruir das suas benesses, sem se importar se o Rei veste vermelho ou verde.
E infelizmente só poucos, bem poucos, têm a sinceridade de uma criança para gritar “O Rei está nu”, “isso é uma farsa”.

 Ayne regina Gonçalves Salviano
(é jornalista, professora, mestre em Comunicação e Semiótica, gestora do Damásio Educacional em Araçatuba)