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O outro lado da independência

Por MARCO ANTONIO POLETTO
09 de setembro de 2018
Marco Antonio Poletto
Nessa sexta-feira passada o Brasil comemorou mais um 7 de setembro. Quem pesquisou, como eu, profundamente História do Brasil, principalmente o nosso 07 de setembro, sabe muito bem que a famosa tela de Pedro Américo, retratando a cena do Ipiranga, estampada em todos os livros desta matéria, nada mais é que um fhotoshop. Na realidade, o cavalo não era cavalo (era uma mula), nem o uniforme era de gala (o regente vestia roupa simples de viagem). E, foi no alto da colina e não às margens do Ribeirão Ipiranga que D. Pedro emitiu um desabafo, declarando a Independência do Brasil.
Outro fato curioso (e que teve outra versão) é que, junto a ele, estavam apenas dois mensageiros e quatro cavaleiros que faziam um “paredinha”, enquanto mais uma vez o regente se aliviava de um problema estomacal fecundo, causado pelas costelinhas de porco que comera na noite anterior em Santos, na casa dos Andradas.
Independentemente destes fatos, a Independência do Brasil foi um “arranjo político”. Ela implicou uma acirrada luta social. Várias camadas sociais disputavam a liderança, desejando imprimir ao movimento libertador o sentido que mais convinha e interessava a cada uma. No final, venceu a aristocracia rural dos grandes proprietários escravistas.
Pelo que se sabe, não houve derramamento de uma gota de sangue, apenas um grito, o do Ipiranga. A partir daquele momento, teria marcado na História do Brasil a ruptura com a tutela portuguesa... Da mesma forma que, hoje, somos soberanos em relação ao FMI.(Fora Temer)
O saudoso ministro da era Vargas, Gustavo Capanema, costumava dizer que na política existem fatos e versões. E o que vale são as versões! Na Independência do Brasil, a história ficou com a versão do fato.
Era normal, nas minhas aulas de História, polemizar se o grito decorreu do sonho de uma pátria independente ou da ambição de um império tropical. Até hoje fica o grito parado no ar, eternizado em rostos das figuras do nosso mestre Portinari, no romanceiro de Cecília Meireles, no samba agônico de Chico Buarque, no coração desolado das sofridas mães brasileiras.
Sob o grito da independência ressoam os gritos dos índios trucidados pela aristocracia rural colonizadora brasileira, que encaminhou a independência do Brasil com o cuidado de não afetar seus privilégios, representados pelo latifúndio e escravismo. Dessa forma, a independência foi imposta verticalmente, com a preocupação em manter a unidade nacional e conciliar as divergências existentes dentro da própria elite rural, afastando os setores mais baixos da sociedade representados por escravos e trabalhadores pobres em geral. A independência não marcou nenhuma ruptura com o processo de nossa história colonial. As bases socioeconômicas (trabalho escravo, monocultura e latifúndio), que representavam a manutenção dos privilégios aristocráticos, permaneceram inalteradas. O “sete de setembro” foi apenas a consolidação de uma ruptura política, que já começara 14 anos atrás, com a abertura dos portos.
O grito dos excluídos ecoa neste mês dos 196 anos da independência. Ecoa na contramão dos caminhos que restauram o passado, traçados por aqueles que ainda incensam a ditadura e reforçam o apartheid social. Ecoa indignado sobre a avalanche de corrupção que ameaça nossa democracia. Ecoa por clamor de ética na política, transparência nos poderes constituídos e severa punição aos que traem os anseios do povo, inoculando-nos o medo de ter esperanças.
Hoje, sabe-se muito bem que a nossa independência se deu muito mais por interferência velada de Dona Leopoldina que propriamente pelo esforço de seu marido. Mas isso é uma outra história.
Mas independência não é só isso.
Independência nós temos que fazer todos os dias, com crianças nas escolas e fora dos faróis vermelhos das ruas,  com muita ética na política brasileira, sem preconceitos sob todas as formas. Independência é um país distribuindo terras improdutivas sem privilégios, demagogias e batalhas medievais, preservando suas florestas e matas. Independência é uma melhor distribuição de renda, direitos iguais para todos e não só privilegiando alguns. Independência é...
É isso.

Marco Antonio Poletto 
(é gestor no Poder Judiciário, Historiador, Articulista e Animador Cultural)