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O Natal é todo dia!

Por Marco Antonio Poletto
22 de dezembro de 2019
O Natal deveria ser todo dia, não com a trabalheira dos excessos, mas na magia do encontro, na festa da alegria, na união de todos em prol de um bem comum, nas cores, na leveza das brincadeiras, até mesmo daquele parente que você considera chato, mas que sempre tem algo a ensinar ou um mar de carência que ele se preocupa em não demonstrar, mas que deixa evidente na necessidade de chamar a atenção: “quando você pratica o bem, age de conformidade com sua essência nem percebe que o natural, o normal, é ser bom”. 
Meu saudoso e querido amigo Professor Luiz Carlos de Oliveira sempre dizia que ele era do tempo em que o Natal era monopólio da criançada, que mesmo já não acreditando muito, não deixava de experimentar um misto de respeito e temor quando se via cara a cara com o bom velhinho. Aquele sim era um ritual mágico. O enorme (e legítimo) pinheiro engalanado, sob o qual uma infinidade (pelo menos assim me parecia) de presentes aguardava a chegada da indefectível figura, cuja presença o alarido dos vira-latas normalmente precedia – nesses trópicos, trenós puxados por renas são inviáveis mesmo na imaginação. Existem certos momentos na vida que a gente tem que cumprir obrigação, por pura obrigação. O Natal é um desses. Cada ano que passa parece ficar  mais chato, sem criatividade, com esta obrigação toda de cumprir a tradição. Sempre me pergunto por que os homens esperam datas específicas para se permitirem ter sentimentos e declararem seu amor pelos queridos. É muito triste essa condição em que vivemos. Há momentos em que penso que fomos lentamente aprisionados numa rotina de produção fria e esses pequenos momentos (ação de graças, natal, dia dos namorados, dia dos pais, mães, etc.) são aquele mínimo necessário que nos é permitido de amor, apenas para não sucumbir. Até o capitalismo reconhece que o amor é uma necessidade ao ser humano. Mas o que é demais é demais. Também a gente tem o direito de se fartar. Estou imensamente cansado de ouvir todos os anos a mesma lengalenga, principalmente de um monte de “gente”  com espírito natalino, onde todo mundo fica bonzinho! Para se odiarem, novamente, no ano novo. Mas pensam que me enganam com aqueles sorrisinhos lânguidos e corrompidos de arrependimento? Já não posso com esses diabos que me querem convencer que  agora são anjos. E o pior de tudo são as mensagens de Natal nos jornais, rádios, televisão, redes sociais, etc., meu Deus eu não mereço: ” sempre a mesma coisa”!
E os políticos! Sabe quem é que paga a fatura de um ano de Papai Noel desta cambada toda? O povo. Não há nenhuma rubrica do orçamento destinado ao povo:  desminto categoricamente que seja o povo responsável pelo déficit! Pois pare agora. Seu Papai Noel acendeu o alerta vermelho. Você está sofrendo os sintomas do que podemos batizar de TPN (tensão pré-natal), uma síndrome contemporânea que atinge pessoas em todos os cantos do mundo, aonde a festa chega carregada de um monte de coisas que já não significam muito, mas dão bastante despesa e algumas dores de cabeça. É nessa hora que vale a pena tirar a lista de compras da frente e entender os significados mais originais dessa data. Mas, não vá procurar livros de autoajuda. Livros de autoajuda são de uma canalhice quase inconcebível. Voltam-se a pessoas carentes, doentes da alma ou ambiciosas, com sede de sucesso. Não duvido do poder deles, já que a maioria se baseia no conceito da mentalização: “é preciso ver a coisa feita na mente antes que aconteça na realidade”. Mas duvido que seja preciso escrever tantos livros, com variações das fórmulas de sucesso, para descobrir isso. Tento me cercar de pessoas agradáveis e, se possível, otimistas. Ou de pessimistas inteligentes, e sei que é cada vez mais difícil achá-los. Nossa era padece de um mal terrível: a obrigação de ser feliz. Insuportavelmente feliz.
Só não podemos ver Jesus numa goiabeira!
Feliz Natal

Marco Antonio Poletto 
(é Gestor no Tribunal de Justiça, Historiador, Articulista e Animador Cultural)