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O livro preto da escola

Por Marçal Rogério Rizzo
27 de janeiro de 2019
Marçal Rogério Rizzo (Economista e Professor da UFMS – Campus de Três Lagoas/MS)
Existem muitos temores que, na infância, são aumentados para de alguma forma nos fazer “educar”. 
Na escola em que estudei, tinha um livro temido pelos estudantes. Era conhecido por “livro preto”, que nada mais era do que um livro de ocorrências. Os estudantes da época pareciam ter a estranha sensação de que esse livro era diabólico, de que, uma vez aberto perto da gente, poderia nos engolir. Não sabíamos o conteúdo do livro. Dava medo, dava pânico. Ele nos assustava de modo terrível. Era temido de todos, e ninguém queria ter seu nome gravado nas páginas do livro preto. Reinava na escola que o ideal era evitar o contato com o livro preto.
Ainda falando da escola do meu tempo, quem conheceu uma escola estadual sabia que existiam os inspetores de alunos, que eram os que davam o “ar da graça” no quesito disciplina fora da sala de aula. Quando estávamos fazendo alguma algazarra, peraltice ou praticando ato desrespeitoso, bastava dizer que ia nos levar para a diretoria para assinar o livro preto, que logo ficávamos quietos e nos portávamos bem.
Em paralelo, dentro da sala de aula a autoridade era do professor. O que dizia era regra, e tínhamos que obedecer. Ali, o professor nos passava conhecimento, disciplina e princípios para o bom funcionamento da escola e do processo de ensino e aprendizado. Ainda dentro de uma hierarquia, havia também a figura máxima na escola – o Diretor –, que era temido e respeitado por todos, talvez porque, segundo rumores, o livro negro ficava na gaveta de sua mesa.
Nos dias atuais, certamente as opiniões sobre o livro preto se dividiriam: alguns dirão que o uso do livro preto para amedrontar as crianças poderia constrangê-las; outros já serão favoráveis, afirmando que pode ser uma forma de dar limites a quem não estiver enquadrado nas regras. Mas essa discussão fica pra outra hora e lugar...
O que venho recordar aqui foi o dia em que conheci o livro preto. Lembro-me muito bem: era um belo dia de sol; o calor estava forte e havia um amigo de sala que completava mais um ano de vida. Ora amado, ora odiado, ele era muito bem conhecido, pois morava a poucas quadras da escola. E conhecia muita gente. Sempre que alguém comemorava o aniversário, era ele quem buscava ovos em casa para quebrar na cabeça do aniversariante. 
Contudo, naquele dia, era ele o alvo dos ovos e de uma meleca feita com todos os ingredientes que os colegas que um dia tomaram ovos na cabeça encontraram na cozinha. Logo ao portão da escola, mas ainda dentro do pátio, ele foi pego por uma chuva de ovos e de meleca. E, para azar de todos que ali estavam, parte dos ovos caiu em uma menina, que, sem pestanejar, chamou o inspetor de alunos, que logo levou um bloco de alunos para conhecer o livro preto. 
Explico-me: num dado momento, eu estava participando da algazarra e, claro, o inspetor vendo a bagunça, decidiu levar todos que ali estavam. Fomos conduzidos até a sala do diretor. O trecho era curto, mas pareceu longo demais. Por sinal, parecia estar a caminho do “corredor da morte” ou para o campo de concentração de Auschwitz. Foi aí que senti um frio na boca do estômago, imaginando a possibilidade de meus pais serem chamados à escola. Se isso acontecesse, eu poderia ter sérios problemas, como uma surra ou um belo castigo.
Pois bem. Só conseguia pensar no momento trágico que estava vivendo. Que raio eu fazia ali no momento em que os ovos voaram? Por que almejei ver a bagunça de tão perto? 
Nada mais me restou, a não ser encarar a situação. O diretor era uma daquelas pessoas cultas que sabiam como dar uma lição de moral sem ser agressivas. E foi o que fez. Deixou-nos muito sem graça e chateados com a situação de ter sujado a escola e as pessoas. Disse também que, se, por acaso, fizéssemos algo mais de errado, poderíamos tomar uma suspensão e até ser expulsos da escola. Depois disso, veio o livro preto – e ali ficou nosso nome registrado.
Olha. Realmente não fazia sentido ser expulso de um local de que tanto gostava. Em poucos minutos, talvez tenha descoberto que ali era meu “templo sagrado do saber” e que jamais gostaria de perder a oportunidade de continuar até o terceiro colegial. Resumindo: nunca mais fiz nada para ficar marcado no livro preto.

Marçal Rogério Rizzo
(Economista e Professor na UFMS – Campus de Três Lagoas/MS)