segunda 21 setembro 2020
Editorial

O dilema da reeleição

“O poder é afrodisíaco”, justificativa em tom bem humorado o deputado federal Ulysses Guimarães quando lhe perguntavam como ele tinha fôlego, aos 70 anos, para presidir, ao mesmo tempo, a Câmara Federal, as sessões da Assembleia Nacional Constituinte e o PMDB, seu partido.

Outro que adorava o poder, só que no espectro político oposto, era Paulo Maluf, que nasceu em berço de ouro. Mas, ser rico não lhe bastava. Ele queria mais e, claro, escolheu a política. Primeiro atropelou a cúpula do regime militar e, em eleição indireta, em 1978, na Assembleia Legislativa, venceu Laudo Natel na convenção estadual da Arena, partido do governo federal. Empossado, deitou e rolou. Maluf adorava dar demonstrações de força, distribuindo cheques aos prefeitos em palanques armados no centro das cidades do interior. Depois, elegeu-se prefeito de São Paulo pelo voto direto e disputou duas vezes a presidência da República.

Em Jales, José Antonio Caparroz, dono de um patrimônio invejável, também gostava de ser prefeito. Disputou a primeira eleição em 1968 e perdeu para o médico Edison Freitas de Oliveira. Voltou a ser candidato em 1976 e teve mais votos do que os outros cinco candidatos somados. Em 1988, quando muitos o consideravam carta fora do baralho, disputou novamente a Prefeitura e venceu o jovem Garça no olho mecânico: 1,5%.

Caparroz tinha enorme prazer em entregar obras e se relacionar com o andar de cima. Certa ocasião, se alguém jogasse ácido na piscina da Fazenda Sete Copas, metade do governo paulista morreria. Banhavam-se placidamente o então governador Paulo Egydio Martins, o vice Manoel Gonçalves Ferreira Filho, e mais seis secretários estaduais: Afrânio de Oliveira (Casa Civil), Tomaz Magalhães (Transportes), Raphael Baldacci (Interior), Maluly Neto (Trabalho), Adhemar de Barros Filho (Administração) e Jorge Ferreira (Imprensa).

Valentim Paulo Viola era outro que exercia a Chefia do Executivo Municipal com indisfarçável satisfação. Em seis anos de mandato, fez e aconteceu. Entre outras ações, desapropriou a companhia telefônica local, respaldado pelo alto escalão da Telesp, e foi à justiça para desapropriar 16 alqueires do espólio do Dr. Euphly Jalles, implantando o Distrito Industrial II. Com seu jeitão de calabrês e usando ternos bem cortados, ele tinha portas abertas no Palácio dos Bandeirantes. Tanto que, para assistir ao casamento de sua filha Rosângela com o engenheiro Alexandre Rensi desembarcaram no aeroporto de Jales o governador Orestes Quércia e os secretários estaduais Antonio Carlos Mesquita (Administração), João Leiva (Obras) e Carlos Rayel (Comunicação).

Tais reminiscências não são gratuitas. Elas aludem ao fato que abalou a política local há exatos 10 dias, quando o atual prefeito Flávio Prandi Franco (DEM), nascido e criado em Jales, com administração bem avaliada em todas as pesquisas idôneas e ainda com cinco ou seis obras para inaugurar, anunciou que não seria candidato à reeleição.

Por estranha coincidência, em sua página na Folha de S. Paulo, de anteontem, dia 14, a jornalista Mônica Bergamo publicou: “o ministro da Economia, Paulo Guedes, está convencido de que um dos grandes problemas do Brasil é a reeleição.”


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